Semiótica e linguagem
Umberto Eco
A abertura de capítulo que declara a função deste autor está em Fundamentos.
Na lista de referências
- ECO, Umberto. A estrutura ausente: introdução à pesquisa semiológica. Tradução de Pérola de Carvalho. Revisão de Mary Amazonas Leite de Barros. 7. ed. São Paulo: Perspectiva, 1997. (Coleção Estudos).
- ECO, Umberto. Como se faz uma tese em ciências humanas. Tradução de Ana Falcão Bastos e Luís Leitão. Prefácio de Hamilton Costa. 13. ed. Lisboa: Editorial Presença, 2007.
- ECO, Umberto. Semiótica e filosofia da linguagem. Tradução de Mariarosaria Fabris; José Luiz Fiorin. Revisão de Izidoro Blikstein. São Paulo: Editora Ática, 1991. (Série Fundamentos, 64).
- ECO, Umberto. Tratado de semiótica general. Traducción de Carlos Manzano. 5. ed. Barcelona: Editorial Lumen, 2000.
Onde a tese o cita
54 trechos, na ordem da tese.
Para manter controlável o percurso inferencial, a literatura mobilizada ao longo do trabalho é tratada por distinção metodológica entre objeto e instrumentos (Eco, 2007, p. 69).
Em termos práticos, referenciais de economia política, sociologia, filosofia, antropologia do consumo e teoria da comunicação ingressam para orientar a identificação de mecanismos relevantes e disciplinar inferências, sem impor reconstrução exegética das obras mobilizadas, de modo que o argumento permaneça reconduzível a evidências rastreáveis e a parâmetros normativos reconhecíveis (Eco, 2007, p. 69-70).
A disciplina de recorte encontra apoio explícito em Umberto Eco (2007, p. 70-71), que distingue a investigação de um pensamento em sua origem da investigação de usos e apropriações posteriores e assinala que, em certos recortes, o que importa é o que se fez do conceito.
É o caso, por exemplo, de uma tese sobre O pensamento econômico de Adam Smith, cujo objecto é constituído pelos livros de Adam Smith, enquanto os instrumentos são outros livros sobre Adam Smith. […] Noutros casos, pelo contrário, o objecto é um fenômeno real; é o que acontece com as teses sobre os movimentos migratórios internos na Itália actual, sobre o comportamento de um grupo de crianças deficientes ou sobre as opiniões do público relativamente a um programa de televisão a ser transmitido actualmente.” (Eco, 2007, p. 69).
Mas se me limitar a pressupor que eles se terão inspirado livremente em traduções do japonês, o que me interessa é aquilo que eles fizeram do Zen e não aquilo que o Zen era na origem.” (Eco, 2007, p. 70-71).
Nesse desenho, os referenciais mobilizados cumprem a função de oferecer ponto de apoio para estabilizar perguntas e delimitar mecanismos observáveis, sem que isso implique culto, reprodução acrítica ou reconstituição integral do percurso autoral (Eco, 2007, p. 41).
Para que esse percurso não se desorganize, preserva-se ainda separação nítida entre fontes e literatura crítica (Eco, 2007, p. 70).
Essa arquitetura evita a deriva erudita que perde o fenômeno de vista e também evita a retórica que usa autores como selo de prestígio, mantendo o argumento reconduzível a evidências rastreáveis e a critérios justificáveis (Eco, 2007, p. 69-70).
Os homens medievais, que tinham um respeito exagerado pela autoridade dos autores antigos, diziam que os modernos, embora ao seu lado fossem ‘anões’, apoiando-se neles tornavam-se ‘anões às costas de gigantes’ e, deste modo, viam mais além do que os seus predecessores.” (Eco, 2007, p. 41).
Além disso, um estudo apressado e desordenado pode levar facilmente a confundir o discurso sobre as fontes com o discurso sobre a literatura crítica.” (Eco, 2007, p. 70).
Em Eco, o signo deixa de ser tratado como entidade estática e passa a ser compreendido como função, isto é, como operação de significação que ocorre quando elementos de um plano da expressão se correlacionam, por convenção, com elementos de um plano do conteúdo no interior de um sistema, razão pela qual a análise deve se concentrar menos em signos como coisas e mais nas funções semióticas que os constituem (Eco, 2000, p. 83-84).
Em Eco, a significação não se ancora em uma coisa que carregaria sentido por si, pois o próprio significado do termo é tratado como construção cultural, no sentido de que o significado de um termo é uma unidade cultural (Eco, 2000, p. 111).
A enciclopédia, nesse quadro, funciona como repertório público que torna tais correlações socialmente acessíveis, porque processos semióticos circunscrevem significados sem jamais tocá-los diretamente, mas os tornam operáveis mediante outras unidades culturais (Eco, 1991, p. 112-113).
Eco descreve essa base como enciclopédia em funcionamento, na qual significados lexicais entram como instruções para inserção contextual e se articulam com roteiros, permitindo ao destinatário elaborar cadeias de inferências capazes de fazer crescer o significado contextual (Eco, 1991, p. 79-80).
Eco a descreve como hipótese reguladora a partir da qual o destinatário constrói uma porção local de repertório e, com isso, reconhece uma série de competências semânticas atribuíveis ao texto ou ao emissor (Eco, 1991, p. 114-115).
Eco descreve esse funcionamento por meio do modelo do rizoma, no qual “cada ponto do rizoma pode ser unido e deve sê-lo com qualquer outro ponto” e no qual não há posições fixas, mas “linhas de conexão”, capazes de se romper e “recomeçar seguindo a própria linha” (Eco, 1991, p. 115-116).
Eco formula essa ideia ao sustentar que o interpretante é o que garante a validade do signo mesmo na ausência do intérprete e que a significação se estabelece por remissões sucessivas em um processo de semiose ilimitada (Eco, 2000, p. 114).
Eco explicita que, em cada contexto, certas propriedades são mantidas como pacificamente aceitas, não por necessidade ontológica, mas porque é pragmaticamente necessário aceitar algo por pressuposto (Eco, 1991, p. 133).
Ao mesmo tempo, essa estabilização não congela o sentido em essência fixa, já que a rede de remissões continua operando e a semiose circunscreve unidades culturais ao torná-las, de fato, acessíveis (Eco, 2000, p. 117-118).
Em Eco, o conteúdo não coincide com uma entidade bruta, pois uma determinada civilização organiza o conteúdo em campos, eixos e subsistemas e recorta o continuum de modo que esses segmentos não correspondem apenas a entidades fisicamente reconhecíveis, mas também a relações e direções instituídas culturalmente (Eco, 1991, p. 61).
Essa distinção ganha formulação ainda mais direta quando se considera o funcionamento do código, porque, ao mencionar estados do mundo, a expressão não transmite primariamente um objeto, na medida em que, em princípio, uma expressão não designa um objeto, mas transmite um conteúdo cultural (Eco, 2000, p. 102).
Eco explicita que qualquer processo de comunicação entre seres humanos pressupõe um sistema de significação como condição necessária (Eco, 2000, p. 25).
No mesmo sentido, a produção de signos, especialmente na produção de contextos, só se torna possível graças às regras previstas proporcionadas pelo código, que não se reduz a correlações, mas inclui regras combinatórias e pode ser entendido como competência (Eco, 2000, p. 144).
Essa competência não é atributo privado, pois o código, entendido como “língua”, constitui soma de noções que formam a competência total do falante e, ao mesmo tempo, surge como convenção coletiva composta pela soma de competências individuais (Eco, 2000, p. 198).
Eco formula isso ao sustentar que, no funcionamento do sistema, não entram ideias psíquicas nem objetos ou referentes, mas valores que emanam do próprio sistema, definíveis em termos de diferenças e pela posição que ocupam na rede de oposições (Eco, 2000, p. 122).
Esse enquadramento impede reduzir o sistema a lista rígida de equivalências, pois o código, entendido em sua complexidade, funciona como máquina que fornece instruções para manobrar sistemas de equivalências em diversos contextos e circunstâncias, aproximando-se do modelo de enciclopédia como competência socialmente estabilizada (Eco, 1991, p. 286).
Eco indica que, quando um bem entra em um sistema de troca, seu valor deixa de se expressar apenas como uso e passa a assumir caráter relacional, isto é, torna-se valor de troca no interior de um sistema de equivalências, no qual a mercadoria funciona como forma de expressão desse valor (Eco, 2000, p. 48-49).
Além disso, Eco explicita que sistemas culturais podem se reestruturar, de modo que um campo semântico começa a se dissolver para dar lugar a outro organizado de forma diferente, processo que produz confusões e disputas e que frequentemente acompanha divisões culturais que também são divisões de classe (Eco, 2000, p. 130-131).
Eco formula isso ao afirmar que, desde o momento em que existe sociedade, todas as funções se transformam automaticamente em signos dessa função (Eco, 2000, p. 47).
No mesmo sentido, o objeto se torna unidade semântica de distinção quando indica certa posição social e adquire valor simbólico, podendo significar riqueza ou outros atributos mesmo quando se apresenta como objeto (Eco, 2000, p. 52).
Em Eco, essas seleções contextuais não apenas acompanham o significado, mas distinguem e dirigem percursos de leitura, determinando denotações e conotações e exercendo a função de desvio, no sentido de um câmbio de via ferroviário, que encaminha a interpretação por trilhos previstos pelo próprio sistema (Eco, 2000, p. 169).
A consequência é que o discurso fornece regras de leitura antes mesmo de qualquer conteúdo isolado, pois a própria língua, longe de ser mera associação entre significantes e significados, proporciona regras discursivas que integram o funcionamento pragmático da significação (Eco, 2000, p. 146).
Eco explicita que a teoria não deve listar todas as ocorrências possíveis, mas apenas aquelas reconhecidas cultural e convencionalmente como estatisticamente mais prováveis (Eco, 2000, p. 176), o que indica que o sistema organiza uma hierarquia de interpretações aceitáveis por critérios estabilizados de probabilidade cultural, e não por essência de um referente.
Eco ilustra esse ponto ao distinguir a inferência individual da regra socializada, ao indicar que a relação entre manchas e sarampo só se torna semiótica quando foi convencionalizada e registrada em tratados de medicina, já que existe signo sempre que um grupo humano decide usar uma coisa como veículo de qualquer outra (Eco, 2000, p. 36).
Eco afasta o psicologismo e situa a interpretação em plano objetivo e social, ao afirmar que os interpretantes não dependem necessariamente de representações mentais inatingíveis dos sujeitos e são coletivamente verificáveis, porque uma relação de interpretação é registrada pelo tesouro da intertextualidade, noção que se identifica com a de enciclopédia (Eco, 1991, p. 112-113).
Originalmente publicada em 1984, Semiótica e Filosofia da Linguagem, de Umberto Eco (1991), é a obra na qual o autor reorganiza e aprofunda um conjunto de verbetes semióticos por ele elaborados para a Enciclopedia Einaudi.
“En cambio (excepto en el caso de los procesos simples de estimulación), cualquier proceso de comunicación entre seres humanos —o entre cualquier otro tipo de aparato “inteligente”, ya sea mecánico o biológico— presupone un sistema de significación como condición propia necesaria.” (Eco, 2000, p. 25).
“Pero la producción de signos es posible (especialmente en el caso de producción de contextos) sólo gracias a las reglas previstas proporcionadas por el código y con frecuencia el código se entiende no sólo como regla de correlación, sino también como conjunto de reglas combinatorias (en otros términos, se ve el código como competencia […].” (Eco, 2000, p. 144).
Pero esa competencia generalizada es la suma de las competencias individuales que dan origen al código como convención colectiva.” (Eco, 2000, p. 198).
No son materia de cоnocimiento empírico y ad hoc de los referentes, sino elementos de información codificada, es decir, unidades semánticas del mismo tipo que las marcas, sólo que desempeñan una función de CAMBIO DE VIA (en el sentido ferroviario de esta expresión).” (Eco, 2000, p. 169).
Sob o léxico teórico de Umberto Eco (1991; 2000), o ambiente não apenas comunica informações sobre o objeto, mas estrutura o campo de interpretação no qual a fruição se torna inteligível, de modo que o controle dos códigos e das mediações decisivas reconfigura a própria possibilidade de decodificação e de reação do consumidor.
Umberto Eco (1997) fornece a chave técnica para tratar signo e código como dimensões operativas da experiência.
Ao indicar que a conotação, por ser compartilhada, é “traduzida em um sistema de expectativas” e “será prevista por um léxico conotativo”(Eco, 1997, p. 29), fixa-se que o signo coordena previsões práticas.
Eco sustenta que a aceitabilidade de uma expressão depende do código e que seria uma redução exagerada afirmar que o código fixa apenas conteúdo (Eco, 2000, p. 145).
Eco observa que uma teoria dos códigos se interessa principalmente pelos signos como forças sociais (Eco, 2000, p. 109), o que permite reconhecer perdas relevantes que se manifestam como rebaixamento persistente de reconhecimento, alcance ou pertencimento quando esses elementos foram ofertados como parte do valor.
No limite, Eco sustenta que os sujeitos são moldados pelas possibilidades que a forma do mundo produzida pelos signos lhes permite ocupar (Eco, 1991, p. 62).
Em outras palavras: o código estabelece que um dado significante denota um determinado significado.” (Eco, 1997, p. 24-25).
O significante apresenta-se, então, e cada vez mais, como forma geradora de sentido, que se preenche de montes de denotações e conotações graças a uma série de códigos e léxicos que estabelecem as correspondências entre ele e grupos de significados.” (Eco, 1997, p. 29)
Em Eco, conforme já assentado, o signo opera materialmente na vida social como força que estrutura práticas e efeitos, e o significado não precisa ser reduzido a “uma imagem mental”, pois é “essa imposição, exercida pelo código sobre o falante”, que permite compreendê-lo como relação instituída pelo sistema, e não como evento psíquico, evitando a “perigosa concessão ‘mentalista’” (Eco, 1997, p. 24).
Nessa chave, a interpretação pode ser compreendida como dado objetivo, pois os interpretantes, isto é, as relações de interpretação, não dependem necessariamente de representações mentais individuais e são coletivamente verificáveis (Eco, 1991, p. 112).
Assim, a objeção de mentalismo não procede porque não se está falando de associações ou imagens mentais, mas de correlações formuladas em termos culturais, que remetem mutuamente em um plano abstratamente cultural, independentemente de uma mente humana realizar essa associação (Eco, 2000, p. 163).
Eco descreve o código linguístico como algo estabelecido por cristalização social, produto de uma média estatística fixada pelo uso e que, uma vez estabilizado, passa a operar com valor coercitivo, impondo um sistema de relações ao qual os falantes obedecem, muitas vezes de modo inconsciente (Eco, 1997, p. 31).
Eco indica que existem subcódigos difusos que autorizam conotações específicas e observa que, em certos subuniversos semânticos, recaem sobre um termo conotações amplamente autorizadas e marcas axiológicas que orientam leituras previsíveis (Eco, 2000, p. 162).
Eco sustenta que as unidades culturais são postulados semióticos e que o produtor comum de signos não as vê, mas as usa, enquanto uma teoria dos signos não as usa, mas as vê (Eco, 2000, p. 120).