Seção 4.1.1 · p. 266 a 281
4.1.1 Sistemas de signos e a produção de sentido em plataformas digitais
p. 266
A extração típica dos OIC depende de um regime de significação que torne o bem inteligível, desejável e comparável em um ecossistema governado. O objeto só adquire forma econômica quando pode ser lido como posição de fruição dotada de sentido, raridade, pertencimento e prestígio. Por isso, a oferta não se reduz à entrega técnica nem se esgota em declarações formais, pois opera por sinais que organizam expectativa e orientam conduta. A semiótica de Umberto Eco290 entra como instrumento descritivo para fixar o signo como componente juridicamente material do bem imaterial, condição prática de sua existência social e de sua valorização técnico-econômica.
O signo relevante para os OIC não é etiqueta acoplada a conteúdo neutro, porque o sentido do bem depende de correlações convencionais regidas por código. Em Eco, o signo p. 267 deixa de ser tratado como entidade estática e passa a ser compreendido como função, isto é, como operação de significação que ocorre quando elementos de um plano da expressão se correlacionam, por convenção, com elementos de um plano do conteúdo no interior de um sistema, razão pela qual a análise deve se concentrar menos em signos como coisas e mais nas funções semióticas que os constituem (Eco, 2000, p. 83-84). Essa formulação desloca o foco para as regras que permitem que algo valha como algo, o que torna visível que a inteligibilidade do objeto é produzida por relações estruturais e, portanto, pode ser administrada, estabilizada e reconfigurada por regimes de significação.
Uma analogia operacional ajuda a tornar mais evidente a questão em debate. Enquanto signo de sustento, o “salsichão”291, em economias materiais, remete a um referente que alimenta e se esgota. Já o “salsichão digital”, sob a forma de uma skin, um badge, uma moldura ou um título, opera como signo quase puro: não se consome, não se desgasta, não é rival, e ainda assim organiza desejo, conduta e hierarquia no ecossistema. O que se compra não é um objeto dotado de uso em sentido material, mas uma função semiótica cuidadosamente posicionada na rede de diferenças que torna o item legível como “raro”, “de evento”, “prestigioso” ou “de pertencimento”. Nesse regime, o signo não acompanha a oferta. Ele é parte constitutiva do que se reconhece como entrega.
Essa estrutura revela um deslocamento econômico decisivo, uma vez que o custo marginal de produção do signo pode tender a zero, mas sua capacidade de captura de valor é maximizada quando a plataforma controla a gramática que define o que conta como distinção e o que deve ser reconhecido como superior. A troca, então, deixa de ocorrer entre coisas e passa a ocorrer entre tempo de vida e posições simbólicas. Em termos práticos, horas reais de atenção, permanência e desempenho são convertidas em marcadores cuja existência depende apenas da manutenção do código e da circulação do reconhecimento. O ganho do fornecedor não reside em entregar um “bem” proporcional ao esforço do consumidor, mas em administrar um regime de significação no qual o esforço é socialmente convertido em signo, e o signo, por sua vez, é reconvertido em permanência e monetização recorrente.
Se o signo é função e não “coisa”, o ponto decisivo é como a plataforma organiza as correlações que tornam o bem legível e desejável. Nos OIC, oferta é posição de fruição, não mero acesso técnico: sua leitura informa o que o item “é”, o que “vale” e por que importa. A correlação entre expressão e conteúdo, nesse ambiente, não ocorre como dado neutro, mas como p. 268 produção dirigida de sentido. A plataforma decide quais marcas, categorias, narrativas e sinais serão correlacionados ao item para fazê-lo existir socialmente como raridade, pertencimento ou prestígio. Por isso, o regime semiótico não é camada externa do consumo, mas condição prática de existência do objeto econômico, porque transforma o bem imaterial em expectativa socialmente reconhecível.
O passo seguinte é afastar qualquer leitura naturalista do sentido e fixar que o conteúdo operado pelo signo é produto de regras e de repertórios compartilhados. Em Eco, a significação não se ancora em uma coisa que carregaria sentido por si, pois o próprio significado do termo é tratado como construção cultural, no sentido de que o significado de um termo é uma unidade cultural (Eco, 2000, p. 111). Isso permite descrever o valor dos OIC como algo que se estabiliza por códigos e por distinções internas ao sistema, e não por propriedades intrínsecas do item. A enciclopédia, nesse quadro, funciona como repertório público que torna tais correlações socialmente acessíveis, porque processos semióticos circunscrevem significados sem jamais tocá-los diretamente, mas os tornam operáveis mediante outras unidades culturais (Eco, 1991, p. 112-113). Assim, o sentido que sustenta a promessa do OIC aparece como efeito estruturado de regras e de uma rede interpretativa compartilhada, condição pela qual a plataforma pode produzir, reforçar e também reconfigurar a inteligibilidade do bem.
Uma maneira direta de observar o que Eco descreve como unidade cultural, operando em regime de código, é olhar para signos que não “acrescentam” nada ao desempenho técnico do jogo e, mesmo assim, reordenam a leitura social do sujeito dentro do ecossistema. Em League of Legends, uma borda de tela de carregamento associada ao elo de ranqueamento do usuário, ou um ícone de progressão, não aumenta dano, não altera alcance, não melhora a taxa de vitória. Ainda assim, funciona como instrução pública de leitura, pois antecipa, em poucos pixels, um conjunto de inferências sobre senioridade, esforço, confiabilidade, ameaça, prestígio, pertencimento e lugar hierárquico, tudo isso antes mesmo de qualquer ação de gameplay. Essa economia do sentido é “limpa” o bastante para mostrar o signo quase puro, porque desloca a entrega para o plano da legibilidade, da comparação e do reconhecimento.
O deslocamento não ocorre por geração espontânea. A plataforma administra a correlação entre esforço e signo, ao produzir e manter um conjunto estável de marcas que transforma tempo de vida em distinções reconhecíveis. A própria documentação pública de suporte descreve a “regalia ranqueada” como representação visual do ranque do jogador, distribuída entre emblemas e bordas, e afirma que as bordas de tela de carregamento exibem o p. 269 ranque atual do modo em que se está jogando (Riot Games, 2025g)292. A política de recompensas reforça esse mesmo mecanismo ao ligar, de modo reiterado, recompensas visuais a patamares alcançados e ao tier mais alto obtido em recortes temporais, convertendo uma trajetória de desempenho em signos que passam a circular como reputação condensada (Riot Games, 2026b)293. Se, no vocabulário de Eco, a enciclopédia é o repertório público que torna operáveis certas correlações, aqui ela é, também, um aparato de design e de suporte que mantém essas correlações “em dia”, estabilizando o que pode ser lido como prestígio e como diferença relevante.
O resultado é um sistema de diferenças cujo valor é posicional. Uma borda “Diamante” é valiosa justamente porque existe em contraposição a “Ferro”, “Bronze”, “Prata”, “Ouro”, “Platina” e “Esmeralda”. É justamente porque o ecossistema repete o mesmo idioma visual a cada partida, a cada lobby e a cada temporada, naturalizando a hierarquia como gramática, que o sistema de ranqueamento assume tamanho peso simbólico sobre os jogadores. Nesse sentido, a tabela pública de tiers e divisões deixa explícito que a distinção não é propriedade intrínseca do item, mas efeito de arquitetura relacional e de critérios de promoção e rebaixamento (League of Legends Wiki, [202-?]j)294. O signo, assim, não é adereço colado a um conteúdo neutro. Ele é um componente constitutivo do que circula como entrega, pois a posição de fruição se realiza enquanto posição socialmente legível, comparável e reconhecida.
Essa leitura ganha ainda mais força quando se observa que o próprio contrato do fornecedor recusa tratar o conteúdo virtual como objeto apropriável em sentido clássico e bloqueia sua conversão para fora do ecossistema. Ao afirmar que o usuário não possui titularidade sobre o “Conteúdo Virtual”, que não pode resgatá-lo por dinheiro do “mundo real” e que a empresa nega valor monetário a dados e conteúdos residentes em seus servidores, o contrato deixa claro que a substância econômica desse tipo de item se realiza, primariamente, p. 270 dentro do circuito de signos que a própria plataforma institui e mantém (Riot Games, 2024e)295. Nessa chave, o “salsichão digital” é menos uma metáfora e mais uma descrição operacional do vínculo. A entrega consiste em um lugar reconhecível no interior da enciclopédia do jogo, em que bordas e ícones funcionam como unidades culturais de prestígio e como marcadores de legibilidade social, organizando desejo e disciplinando conduta por visibilidade.
A mesma lógica aparece de modo ainda mais transparente no sistema de Challenges, porque aí a plataforma assume, sem pudor, que parte da “entrega” se realiza como linguagem de identidade. Títulos e tokens não são acessórios de performance. Eles são etiquetas públicas que se tornam companheiras do nome do jogador e passam a circular no ambiente como um pequeno vocabulário de reputação, no qual a pessoa escolhe como quer ser lida. A Riot descreve isso em material institucional de walkthrough ao afirmar que títulos são ganhos por progressão de desafios, e que tokens podem ser equipados “para exibir”, com direito a leitura contextual pelo próprio sistema (Riot Games, 2022d).296 Nesse desenho, o signo não precisa sequer se disfarçar de “cosmético” ligado a um avatar. Ele se prende ao próprio sujeito como frase curta, e, ao fazê-lo, reforça a função semiótica como unidade cultural em estado quase puro, pois o que circula ali é uma instrução de leitura padronizada e reconhecível, integrada ao protocolo do encontro social no jogo.
O efeito é que o regime de signos deixa de operar apenas em momentos pontuais, como a tela de carregamento, e passa a integrar uma camada contínua de apresentação do consumidor dentro do ecossistema. A documentação oficial de suporte não trata títulos e tokens como curiosidades, mas como elementos de “customização de identidade”, com local de equipagem p. 271 definido e com o pressuposto de que essa escolha tem valor de exibição (Riot Games, 2022b).297 Se a enciclopédia, em Eco, organiza um campo compartilhável de inferências, esse tipo de recurso faz a enciclopédia “andar” no corpo do usuário, pois converte feitos e rotinas em marcas prontas para leitura, padronizando a forma como a comunidade reconhece “o que alguém é” naquele mundo.
Essa padronização é, de novo, relacional e governada. O próprio material institucional sobre Challenges descreve que títulos são “ganhos” por progressão em tiers e que o jogador pode escolher livremente entre os títulos desbloqueados, o que evidencia uma dupla camada de administração: primeiro a plataforma define as trilhas e os critérios pelos quais o signo é liberado, e depois oferece ao consumidor um repertório de autoapresentação, que funciona como seleção dentro de uma enciclopédia previamente produzida (Riot Games, 2022d). Em termos de semiótica, o gesto é elegante e perigoso ao mesmo tempo. Ele reduz a subjetividade a um conjunto de marcadores curtos e comparáveis, e intensifica a comensurabilidade interna do ecossistema, porque multiplica as maneiras pelas quais o jogador pode ser “lido” em tempo real, mesmo quando nada está acontecendo no gameplay.
Por fim, esse segundo microexemplo conversa diretamente com o enquadramento contratual de Conteúdo Virtual. A plataforma pode admitir, como regra de base, que o usuário não tem titularidade, nem direito exclusivo, nem conversão monetária para fora do ecossistema, e, ainda assim, oferecer uma abundância de signos identitários como parte da experiência de consumo, precisamente porque o valor central desses itens não está fora, mas dentro do circuito de reconhecimento. O contrato, ao negar o valor em dinheiro e ao bloquear a transferência e o resgate, torna ainda mais visível que esse tipo de entrega se sustenta na enciclopédia social e nos protocolos de leitura instituídos pela própria empresa (Riot Games, 2024e).298
Se significado é unidade cultural e se a enciclopédia delimita o que pode ser reconhecido como sentido, a análise do OIC precisa tratar raridade, pertencimento, prestígio e “edição” como efeitos de uma gramática social operada pela plataforma. Esses atributos não emergem do item como se fossem propriedades naturais, porque dependem de códigos que definem distinções relevantes e de repertórios que tornam tais distinções interpretáveis em comunidade. p. 272 O bem imaterial passa a existir economicamente na medida em que pode ser situado dentro dessa rede de diferenças, de roteiros e de expectativas compartilhadas, o que explica por que a plataforma não governa apenas acesso, mas também as condições simbólicas de inteligibilidade que sustentam a promessa. Quando essa administração reorganiza categorias, reordena sinais, reconfigura narrativas ou altera o modo de circulação do item, altera-se também a própria forma de existência social do objeto, com impacto direto sobre aquilo que o consumidor entende estar adquirindo e sobre como essa aquisição pode ser reconhecida como valiosa.
A leitura da oferta, nesses mercados, não opera por intuição individual, mas sobre uma gramática social prévia que organiza inferências e estabiliza expectativas. Eco descreve essa base como enciclopédia em funcionamento, na qual significados lexicais entram como instruções para inserção contextual e se articulam com roteiros, permitindo ao destinatário elaborar cadeias de inferências capazes de fazer crescer o significado contextual (Eco, 1991, p. 79-80). A interpretação, portanto, assume a forma de cooperação regulada por competências e por scripts que orientam aquilo que pode ser esperado de uma situação e de um signo.
Ao mesmo tempo, esse quadro não autoriza relativismo interpretativo, porque a enciclopédia atua como limite. Eco a descreve como hipótese reguladora a partir da qual o destinatário constrói uma porção local de repertório e, com isso, reconhece uma série de competências semânticas atribuíveis ao texto ou ao emissor (Eco, 1991, p. 114-115). Em plataformas, essa dinâmica significa que sinais de raridade, pertencimento, exclusividade ou prestígio funcionam como instruções codificadas que projetam condutas e expectativas de fruição, enquanto o consumidor permanece dependente da enciclopédia administrada e ativada pelo próprio ambiente técnico-midiático.
Se a interpretação depende de roteiros, instruções e hipóteses reguladoras, a promessa do OIC opera como organização contínua de conduta, não como informação prévia à compra. A plataforma fornece sinais e contextos que orientam a leitura do que o item “é” e do que “coloca em jogo” publicamente. Assim, desejo, urgência, comparação e pertencimento deixam de ser efeitos psicológicos laterais e tornam-se resultados previsíveis de uma engenharia de significação que estabiliza expectativas em tempo real. Com isso, a fruição tende a coincidir com performance, e o valor do bem passa a depender do reconhecimento público de sua posição dentro do ecossistema, o que torna a permanência parte do próprio produto e prepara o terreno para compreender por que a visibilidade e a prova social serão tratadas, adiante, como infraestrutura econômica do consumo.
A dinâmica pela qual esses sinais produzem e sustentam sentido não se organiza como sequência linear, mas como rede em circulação contínua, na qual conexões se recombinam e p. 273 recomeçam mesmo após rupturas. Eco descreve esse funcionamento por meio do modelo do rizoma299, no qual “cada ponto do rizoma pode ser unido e deve sê-lo com qualquer outro ponto” e no qual não há posições fixas, mas “linhas de conexão”, capazes de se romper e “recomeçar seguindo a própria linha” (Eco, 1991, p. 115-116).
Nesse quadro, o sentido não depende de ato isolado de leitura, pois é garantido pelo encadeamento do próprio sistema, que fornece interpretantes sucessivos e mantém a validade do signo para além da presença pontual de um intérprete. Eco formula essa ideia ao sustentar que o interpretante é o que garante a validade do signo mesmo na ausência do intérprete e que a significação se estabelece por remissões sucessivas em um processo de semiose ilimitada (Eco, 2000, p. 114). Em plataformas, isso permite descrever a promessa do OIC como efeito de uma rede de signos que se reforça por circulação e recombinação, tornando o valor algo reiterado e estabilizado no próprio ambiente, ao mesmo tempo em que preserva abertura para reconfigurações que não precisam ser anunciadas como mudança explícita de conteúdo.
Quando o sentido se estabiliza por remissões sucessivas, a plataforma passa a governar valor sem tocar diretamente no “conteúdo” técnico. A promessa pode ser reforçada, deslocada ou esvaziada por curadoria de conexões e por alterações de visibilidade, relevância e roteiros de leitura. Assim, a permanência não se sustenta apenas por barreira de saída, mas por reiteração semiótica contínua, na qual o consumidor é mantido em um circuito de reconhecimento, comparação e atualização de sentido. Esse modo de funcionamento torna plausível que reconfigurações relevantes ocorram como ajustes difusos do ecossistema, isto é, como mudanças na rede que sustenta interpretantes, e não necessariamente como quebra formal de um item, o que ajuda a explicar por que a verificabilidade do nexo entre promessa e fruição se torna um problema estrutural.
A abertura em rede da semiose não implica deriva caótica, pois a própria vida social impõe recortes de estabilidade para que comunicação e coordenação de expectativas sejam possíveis. Eco explicita que, em cada contexto, certas propriedades são mantidas como pacificamente aceitas, não por necessidade ontológica, mas porque é pragmaticamente necessário aceitar algo por pressuposto (Eco, 1991, p. 133). Ao mesmo tempo, essa estabilização não congela o sentido em essência fixa, já que a rede de remissões continua operando e a semiose circunscreve unidades culturais ao torná-las, de fato, acessíveis (Eco, 2000, p. 117-118). Nesse quadro, a plataforma pode administrar a promessa do OIC por recortes p. 274 locais de consenso e por reconfigurações no encadeamento de signos, mantendo a inteligibilidade pública do bem enquanto desloca gradualmente as condições que sustentam sua leitura e seu valor.
Se a estabilidade do sentido depende de recortes pragmáticos de consenso, então a promessa do OIC funciona como pacto interpretativo continuamente renovado no interior do ecossistema. A plataforma preserva traços “aceitos” para manter reconhecimento público do item e, ao mesmo tempo, desloca conexões, narrativas e relevâncias sem romper explicitamente a entrega. Isso ajuda a explicar por que a governança semiótica é especialmente eficaz: ela consegue manter a aparência de continuidade pública do objeto enquanto altera, por dentro, as condições de interpretação que sustentam seu valor. A assimetria não se limita ao acesso a informações contratuais, mas alcança a capacidade de perceber quando o recorte de consenso foi alterado, por quais critérios e com quais efeitos sobre a fruição e sobre a posição simbólica adquirida.
O deslocamento semiótico necessário aqui consiste em separar a inteligibilidade do bem de qualquer leitura que trate o signo como etiqueta colada a uma coisa. Em Eco, o conteúdo não coincide com uma entidade bruta, pois uma determinada civilização organiza o conteúdo em campos, eixos e subsistemas e recorta o continuum de modo que esses segmentos não correspondem apenas a entidades fisicamente reconhecíveis, mas também a relações e direções instituídas culturalmente (Eco, 1991, p. 61). Essa distinção ganha formulação ainda mais direta quando se considera o funcionamento do código, porque, ao mencionar estados do mundo, a expressão não transmite primariamente um objeto, na medida em que, em princípio, uma expressão não designa um objeto, mas transmite um conteúdo cultural (Eco, 2000, p. 102). Para os OIC, isso permite descrever a oferta como organização de inteligibilidade e de expectativa, na qual a plataforma não adiciona imagem a um bem neutro, mas institui as formas culturais pelas quais o objeto existe socialmente, é reconhecido como valioso e pode ser fruído como posição no interior do ecossistema.
Se a oferta transmite conteúdo cultural e se a civilização recorta o mundo em campos de inteligibilidade, o bem imaterial não pode ser reduzido a “arquivo” ou “acesso”, porque aquilo que se adquire inclui a forma social pela qual o item é percebido, comparado e reconhecido. Em plataformas, essa forma é produzida por classificações, narrativas, categorias, sinais e roteiros que definem o que conta como raridade, o que conta como pertencimento e o que conta como prestígio.
A partir desse ponto, a descrição do OIC pode abandonar de vez a imagem do “produto” como unidade fechada e tratar sua forma econômica como efeito de organização semiótica. A p. 275 aquisição não entrega apenas um elemento isolado, mas um pacote de inteligibilidade que inclui critérios de pertinência, comparabilidade e reconhecimento público, isto é, um modo de leitura socialmente estabilizado para o item. Por isso, o signo não entra como adorno, mas como parte do regime material da oferta, porque é ele que fixa o que o bem é considerado, em quais termos ele é desejável e sob quais parâmetros ele se torna mensurável dentro do ecossistema. Essa chave também delimita o tipo de controle jurídico que se torna necessário. Se o valor depende de condições semióticas administradas, o problema não se resolve apenas com exame de cláusulas ou com verificação de execução técnica. Exige critérios capazes de tornar verificável o nexo entre promessa e fruição em um ambiente em que a própria inteligibilidade do bem pode ser reconfigurada por governança contínua.
A possibilidade de tratar a produção e a circulação dos signos como dimensão governável depende de reconhecer que a comunicação não opera por espontaneidade, mas por condições sistêmicas prévias. Eco explicita que qualquer processo de comunicação entre seres humanos pressupõe um sistema de significação como condição necessária300 (Eco, 2000, p. 25). No mesmo sentido, a produção de signos, especialmente na produção de contextos, só se torna possível graças às regras previstas proporcionadas pelo código, que não se reduz a correlações, mas inclui regras combinatórias e pode ser entendido como competência301 (Eco, 2000, p. 144). Essa competência não é atributo privado, pois o código, entendido como “língua”, constitui soma de noções que formam a competência total do falante e, ao mesmo tempo, surge como convenção coletiva composta pela soma de competências individuais302 (Eco, 2000, p. 198). Nessas bases, controlar regras, instruções contextuais e critérios de competência que antecedem a ocorrência concreta do signo significa controlar as condições de inteligibilidade e aceitabilidade pelas quais a promessa do OIC se torna operatória, reconhecível e economicamente valorizável no ecossistema.
O sistema de signos pode ser tratado como mecanismo operatório porque organiza sentido por regras internas de pertinência e por valores posicionais, e não por alguma essência do objeto. Eco formula isso ao sustentar que, no funcionamento do sistema, não entram ideias p. 276 psíquicas nem objetos ou referentes, mas valores que emanam do próprio sistema, definíveis em termos de diferenças e pela posição que ocupam na rede de oposições (Eco, 2000, p. 122). Esse enquadramento impede reduzir o sistema a lista rígida de equivalências, pois o código, entendido em sua complexidade, funciona como máquina que fornece instruções para manobrar sistemas de equivalências em diversos contextos e circunstâncias, aproximando-se do modelo de enciclopédia como competência socialmente estabilizada (Eco, 1991, p. 286).
Em plataformas, essa dupla chave explica por que a inteligibilidade do OIC é administrável. O valor se sustenta por diferenças reconhecíveis e instruções de leitura, que podem ser recalibradas pela governança do contexto sem ruptura formal do item.
Aqui fica mais preciso o que a plataforma governa ao governar o OIC. Não se trata apenas de controlar acesso, catálogo ou fricções de compra, mas de controlar as diferenças pertinentes que fazem um item valer como raro, prestigioso, “de evento” ou “de pertencimento”, além de controlar as instruções contextuais que dizem ao consumidor como essa diferença deve ser lida e performada. Como o valor emana do sistema e se define por posição, alterações na visibilidade, na categorização, nos roteiros de interpretação ou nas conexões com outros signos reconfiguram a própria forma econômica do bem, ainda que o arquivo, o modelo ou a funcionalidade mínima permaneçam tecnicamente “intactos”. Por isso, a promessa do OIC não pode ser auditada apenas pela inspeção do item isolado, pois depende das condições sistêmicas que estabilizam seu sentido e das manobras contextuais que a plataforma pode realizar ao longo do tempo, reordenando a rede sem anunciar uma substituição explícita.
Nesse ponto, fica mais fácil perceber por que posição não é metáfora psicológica, mas estrutura de valor. Eco indica que, quando um bem entra em um sistema de troca, seu valor deixa de se expressar apenas como uso e passa a assumir caráter relacional, isto é, torna-se valor de troca no interior de um sistema de equivalências, no qual a mercadoria funciona como forma de expressão desse valor (Eco, 2000, p. 48-49). Essa lógica ajuda a descrever o OIC como unidade cuja relevância depende da posição que ocupa no ecossistema de signos administrado pela plataforma.
Além disso, Eco explicita que sistemas culturais podem se reestruturar, de modo que um campo semântico começa a se dissolver para dar lugar a outro organizado de forma diferente, processo que produz confusões e disputas e que frequentemente acompanha divisões culturais que também são divisões de classe (Eco, 2000, p. 130-131). Em mercados de plataforma, isso significa que reordenar categorias, critérios e eixos de comparação pode reconfigurar o valor social do bem sem que seja necessário alterar o objeto em si, porque o que muda é o campo no qual ele vale e a gramática que o torna comensurável.
p. 277 Se o valor é posicional e se campos podem ser dissolvidos e reorganizados, então a governança semiótica da plataforma aparece como forma concreta de poder econômico. A plataforma decide quais eixos de oposição importam, quais distinções serão visíveis e quais critérios farão um item saltar de “comum” para “raro”, de “antigo” para “vintage”, de “evento” para “colecionável”, ou de “relevante” para “esquecido”. Assim, o que parece mera curadoria estética ou ajuste de interface funciona como reestruturação de campo, com efeitos diretos sobre mensuração, reconhecimento e circulação do valor.
Nesse ambiente, o consumidor não negocia apenas preço, porque compra inserção em um sistema de equivalências que pode ser recalibrado ao longo do tempo, deslocando o valor sem precisar tocar na materialidade mínima do item. A vulnerabilidade semiótica se torna então ainda mais nítida, dado que a assimetria não está só no desconhecimento de termos contratuais, mas na incapacidade prática de auditar quando o sistema reconfigurou os eixos e, com isso, reconfigurou o valor da posição de fruição adquirida.
A partir desse encaixe entre valor de troca e reestruturação de campos, o signo deixa de ser apenas condição de inteligibilidade e passa a aparecer como infraestrutura de competição social. Se a posição do bem no sistema é o que o torna comensurável e desejável, então visibilidade, comparação e prova social não são “efeitos laterais” do consumo, mas meios pelos quais o valor é produzido e mantido em circulação. O ambiente da plataforma funciona como dispositivo que expõe essas posições, acelera as oposições e torna a hierarquia legível em tempo real, o que transforma fruição em exibição e transforma aquisição em gesto que precisa ser reconhecido para cumprir sua função econômica. É partindo deste ponto que a análise pode avançar para a dinâmica de espetáculo, não como ornamento cultural, mas como forma de governança que estabiliza desejo e permanência por mediação contínua de visibilidade e reputação.
Em ambientes sociais, a utilidade não circula de forma pura, pois práticas e objetos passam a operar como signos da posição que ocupam e do valor que carregam perante os outros. Eco formula isso ao afirmar que, desde o momento em que existe sociedade, todas as funções se transformam automaticamente em signos dessa função (Eco, 2000, p. 47). Isso significa que o uso já carrega dimensão pública e comparável, o que abre espaço para reconhecimento e diferenciação social. No mesmo sentido, o objeto se torna unidade semântica de distinção quando indica certa posição social e adquire valor simbólico, podendo significar riqueza ou outros atributos mesmo quando se apresenta como objeto (Eco, 2000, p. 52). Para os OIC, essa estrutura descreve por que o valor não se estabiliza apenas por atributos técnicos do item, mas pela capacidade de funcionar como signo reconhecível de pertencimento e de prestígio dentro p. 278 do ecossistema, razão pela qual se torna central compreender como tais diferenças são produzidas, mantidas e tornadas legíveis em circulação.
Quando função vira signo e quando objetos indicam posição social, a plataforma ganha um tipo específico de poder, pois controla os mecanismos pelos quais reputação, pertencimento e distinção se tornam legíveis e comparáveis. A promessa do OIC passa a depender não só de ter o item, mas de poder fazê-lo contar publicamente como aquilo que ele significa dentro daquele ecossistema. Isso torna visibilidade condição de fruição. Nessa lógica, a permanência não é apenas permanência técnica, mas permanência social, isto é, continuar inserido no circuito em que a diferença é percebida, a hierarquia é atualizada e o status é validado em tempo real. Isso permite que o próximo movimento introduza o espetáculo como mecanismo de mediação contínua da comparação, ao explicar como a plataforma converte visibilidade em disciplina de conduta e em renovação recorrente do desejo.
Os signos de promessa narrativa operam como forma privilegiada de converter código em desejo, porque oferecem ao consumidor um roteiro de sentido pronto para ser habitado. Trailers, splash arts, textos de evento, cinematics, “temporadas” e marcos de coleção não descrevem apenas um item, mas organizam antecipação, pertencimento e prestígio como se fossem atributos naturais e espontâneos do bem. A promessa narrativa funciona como moldura que decide o que deve ser visto como raro, memorável, “de ocasião”, “de comunidade” ou “de identidade”, e faz essa decisão parecer evidência do próprio objeto, quando na realidade é construção do ecossistema. Assim, o OIC se torna desejável não só pelo que permite fazer, mas pelo papel que encena no imaginário compartilhado e pela posição que promete dentro de uma história coletiva continuamente reativada. Para o argumento central em pauta, isso exige tratar a narrativa como componente operativo da oferta, já que ela projeta expectativas, orienta leitura e fornece a gramática pela qual a fruição passa a ser reconhecida como “entrega” e como valor.
A promessa narrativa não opera como enfeite retórico, porque funciona como mecanismo de instrução que seleciona percursos de leitura e, com isso, produz expectativa como parte da oferta. Em Eco, essas seleções contextuais303 não apenas acompanham o significado, mas distinguem e dirigem percursos de leitura, determinando denotações e conotações e exercendo a função de desvio, no sentido de um câmbio de via ferroviário, que p. 279 encaminha a interpretação por trilhos previstos pelo próprio sistema (Eco, 2000, p. 169). A consequência é que o discurso fornece regras de leitura antes mesmo de qualquer conteúdo isolado, pois a própria língua, longe de ser mera associação entre significantes e significados, proporciona regras discursivas que integram o funcionamento pragmático da significação (Eco, 2000, p. 146). Para os OIC, isso permite descrever trailers, eventos e narrativas de coleção como dispositivos que canalizam inferências, filtram o que conta como relevante e estabilizam antecipações do que o item “promete”, tornando a expectativa um produto codificado do ecossistema e preparando o terreno para compreender como essa codificação também organiza comparabilidade e mensuração interna do valor.
Esse direcionamento interpretativo não se limita a produzir desejo, porque também fornece uma gramática de comparabilidade econômica que torna a promessa mensurável dentro do próprio ecossistema. Pacotes, coleções, janelas de disponibilidade, trilhas de progressão e etiquetas de valor não são apenas formatos de venda, pois funcionam como sinais que traduzem diferenças qualitativas em diferenças com aparência de medida, criando proporções internas, escalas e equivalências operacionais. Assim, o consumidor passa a comparar não só itens, mas posições de fruição, avaliando custo, raridade e oportunidade segundo parâmetros que a própria plataforma institui e recalibra ao longo do tempo. A consequência é que o valor do OIC se estabiliza menos por uma propriedade intrínseca do item e mais pela possibilidade de situá-lo em um sistema de trocas e substituições simbolicamente guiado, no qual “caro”, “vantajoso”, “exclusivo” ou “imperdível” são efeitos de codificação. Isso exige, no passo seguinte, fundamentar como sistemas de signos produzem regras de medida e comparação mesmo quando a base material do bem permanece volátil e reconfigurável.
A comparabilidade econômica nos OIC se sustenta por regras semióticas que funcionam como medidas culturais de pertinência, selecionando quais equivalências devem valer em cada contexto e quais leituras devem ser tratadas como implausíveis. Eco explicita que a teoria não deve listar todas as ocorrências possíveis, mas apenas aquelas reconhecidas cultural e convencionalmente como estatisticamente mais prováveis (Eco, 2000, p. 176), o que indica que o sistema organiza uma hierarquia de interpretações aceitáveis por critérios estabilizados de probabilidade cultural, e não por essência de um referente. Em termos de plataforma, isso ajuda a descrever por que etiquetas, pacotes e janelas de valor não apenas informam preço, mas também instruem o consumidor a comparar e a substituir segundo escalas internalizadas pelo ecossistema, filtrando o que conta como equivalente, vantajoso ou adequado mesmo quando a base material do item permanece volátil.
p. 280 Os signos de validação social operam como mecanismo de publicização do valor, porque tornam a posição de fruição imediatamente legível perante terceiros. Distintivos (badges), bordas, emblemas, títulos, molduras, efeitos visuais públicos e outras marcas voltadas a posicionar o consumidor em evidência não apenas acompanham o item, mas convertem aquisição em reconhecimento e fruição em demonstração. Nesse arranjo, o bem vale também pelo que permite exibir e pela confirmação social que produz, de modo que a utilidade do OIC se torna inseparável de sua visibilidade e de sua capacidade de funcionar como prova de pertencimento e distinção em tempo real. Com isso, a plataforma passa a governar não só o acesso ao bem, mas as condições pelas quais o valor circula e se estabiliza como reputação, preparando o terreno para tratar a comparação pública e a mediação contínua da visibilidade como infraestrutura econômica da permanência.
A estabilidade do signo depende de circulação e de institucionalização comunitária, pois a relação entre um veículo e um conteúdo só se torna operatória quando passa a funcionar como convenção verificável fora de qualquer estado mental privado. Eco ilustra esse ponto ao distinguir a inferência individual da regra socializada, ao indicar que a relação entre manchas e sarampo só se torna semiótica quando foi convencionalizada e registrada em tratados de medicina, já que existe signo sempre que um grupo humano decide usar uma coisa como veículo de qualquer outra (Eco, 2000, p. 36).
Como o que conta como prestígio, pertencimento ou distinção precisa ser legível para terceiros e sustentado por regras de circulação, o ponto decisivo passa a ser quem controla essas condições. Em plataformas, a administração do regime semiótico não se limita a comunicar uma oferta, porque envolve governar vitrine, ordenação, categorias, contextos de exibição, mecanismos de prova social e critérios de relevância que fazem um OIC valer como raro, prestigioso ou pertencente a um circuito específico. Assim, a plataforma governa o próprio objeto ao governar as correlações que estabilizam sua inteligibilidade pública, podendo reforçar, deslocar ou esvaziar promessas sem alterar ostensivamente o item isolado.
A assimetria relevante surge, então, quando a interpretação depende de condições prévias registradas publicamente, mas o destinatário não tem acesso efetivo a essas condições para verificar o nexo entre promessa e entrega. Eco afasta o psicologismo e situa a interpretação em plano objetivo e social, ao afirmar que os interpretantes não dependem necessariamente de representações mentais inatingíveis dos sujeitos e são coletivamente verificáveis, porque uma relação de interpretação é registrada pelo tesouro da intertextualidade, noção que se identifica com a de enciclopédia (Eco, 1991, p. 112-113).
p. 281 Sob o paradigma dos OIC, isso significa que a promessa não é auditável apenas por leitura individual, porque o sentido que sustenta valor e fruição é estabilizado por regras e registros do ecossistema, enquanto a plataforma controla quais correlações serão ativadas e quais percursos de leitura serão tornados disponíveis. A vulnerabilidade semiótica descreve, nesse plano, uma perda estrutural de capacidade de verificação, e não um defeito de atenção do consumidor.
Disso decorre a centralidade de exigências como auditabilidade e equivalência de valor funcional, retomadas adiante não como adorno conceitual, mas como resposta ao problema de prova que emerge quando a entrega passa a depender de condições semióticas governadas e reconfiguráveis. Com isso delimitado, o passo seguinte é tratar como a plataforma converte essa governança semiótica em mediação contínua de visibilidade e reputação, isto é, como o espetáculo funciona como infraestrutura econômica da permanência ao estabilizar desejo e disciplina por comparação pública.
Notas
- Originalmente publicada em 1984, Semiótica e Filosofia da Linguagem, de Umberto Eco (1991), é a obra na qual o autor reorganiza e aprofunda um conjunto de verbetes semióticos por ele elaborados para a Enciclopedia Einaudi. A discussão gira em torno de conceitos nucleares como signo, significado, metáfora, símbolo e código, com o propósito de revisar criticamente noções simplificadas de signo entendidas como correlação fixa. Aqui, interessa sobretudo a ênfase de Eco no signo como fenômeno interpretativo e inferencial, ponto de partida de um processo contínuo de produção de sentido, útil para descrever por que, nos OIC, o que se “promete” não funciona como mensagem acessória, mas como condição de existência social do próprio objeto. Essa ênfase, contudo, não se esgota no plano filosófico, posto que também exige uma descrição estrutural de como os sistemas de significação funcionam e de como signos são produzidos e estabilizados em ambientes codificados. É justamente esse segundo movimento que aparece com maior ênfase em seu Tratado de Semiótica Geral (2000), originalmente publicado em 1976. Nessa obra, Eco sistematiza sua teoria com o objetivo de oferecer um quadro unificado para fenômenos de significação e comunicação, articulando dois eixos interdependentes: uma teoria dos códigos e uma teoria da produção de signos. O tratado realiza um gesto de depuração conceitual ao criticar leituras ingênuas do signo e deslocar o foco para relações funcionais estabelecidas dentro de sistemas codificados, permitindo tratar a produção de sentido como operação, e não como adorno. Essa arquitetura fornece suporte para descrever plataformas como administradoras de regimes de significação e, com isso, explicar por que a oferta de OIC depende de inteligibilidade, reconhecimento e estabilidade produzidos no próprio ecossistema. ↩
- Remete-se a analogia aos bens oferecidos por Luís Bonaparte ao lumpemproletariado por ele mobilizado, conforme mencionados por Karl Marx em O 18 de Brumário de Luís Bonaparte. “[...] ele tratou primeiro os oficiais e suboficiais com charutos e champanhe, com carne de aves fria e salsichão ao alho.” (2011, [p. 58]). ↩
- A documentação de suporte descreve explicitamente a dimensão visual como representação do ranque. Ao afirmar: “Ranked Regalia—the visual representation of the ranks you earn throughout a year—comes in two flavors: Crests and loading screen borders.” (Riot Games, 2025g). Em sequência, detalha o ponto mais importante para a discussão, uma vez que conecta signo e leitura pública: “Loading screen borders display your current rank [...]." (Riot Games, 2025g). O detalhamento é especialmente relevante porque evidencia o signo como infraestrutura de inteligibilidade social, projetada para ser vista e reconhecida antes da partida começar. ↩
- No material de recompensas de fim de temporada, a Riot descreve itens visuais como reflexo do tier alcançado, o que reforça a correlação entre trajetória e insígnia. O texto afirma que “Emote e ícone das Ranqueadas [...] refletem o tier mais alto que você alcançou [...]." e que há “Moldura [...] que reflete o tier mais alto obtido [...]." (Riot Games, 2026b). A formulação é especialmente útil porque assume, sem rodeios, que o valor desses itens é semiótico e posicional, isto é, vale como marca de leitura do sujeito no ecossistema. ↩
- Nesse sentido, o verbete enciclopédica do jogo registra que o sistema é capaz de oferecer alteração das bordas de retrato para exibir ranque, tornando o signo parte da entrada do jogador no espaço social da partida: “The portrait borders will change to reflect the player’s rank [...]." (League of Legends Wiki, [202-?]i), explicitando o lugar do signo na rotina do usuário. Disto infere-se que, no instante em que a comunidade “lê” quem está entrando no jogo, isto provoca ajustamento de expectativas, comparações e disposições de conduta. ↩
- O contrato explicita que o Conteúdo Virtual não se estrutura como propriedade do usuário nem como ativo conversível para fora do ecossistema. Em primeiro lugar, veda o resgate por dinheiro do mundo real: “Você não pode transferir (a menos que permitamos isso na funcionalidade dos Serviços da Riot) nem resgatar Conteúdo Virtual por qualquer tipo de dinheiro do ‘mundo real’.” (Riot Games, 2024e). Em seguida, recusa titularidade e direito de propriedade: “Você também reconhece e concorda que você não tem nenhuma titularidade, direito de propriedade ou outro tipo de direito exclusivo sobre qualquer Conteúdo Virtual [...]." (Riot Games, 2024e). Por fim, nega valor monetário aos dados e conteúdos sob controle do fornecedor: “…negamos expressamente, qualquer valor, em dinheiro ou de outra forma, atribuído a quaisquer dados residentes nos servidores [...]." (Riot Games, 2024e). Em combinação, o sistema de cláusulas não descreve apenas uma limitação jurídica de circulação, mas sinaliza a forma do bem fornecido, cujo valor prático depende das correlações internas de reconhecimento e visibilidade que o próprio ecossistema preserva. ↩
- “Show off” como vocabulário institucional e a redução do signo a unidade cultural explícita (Riot, news/walkthrough). No walkthrough publicado no site oficial, a Riot descreve que “Titles [...] are earned” por progressão de Challenges e que, “Beneath titles are the Challenge Tokens [...] You can equip up to three to show off.” (Riot Games, 2022d). A expressão “show off” é especialmente reveladora porque nomeia, como finalidade imediata, a exibição, o que reforça a leitura do signo como entrega sem utilidade técnica, mas com eficácia social dentro do regime de diferenças. O mesmo material oficial afirma que “Wherever a Token appears, you’ll be able to hover over it to see its associated challenge and Tier.” (Riot Games, 2022d). Trata-se de evidência quase perfeita do que significa a plataforma administrar a enciclopédia, porque o sistema não apenas exibe um símbolo, mas incorpora um mecanismo de interpretação imediata, que revela, em linguagem padronizada, qual trilha e qual patamar aquele signo representa. ↩
- O FAQ oficial sobre Challenges orienta o usuário a equipar Títulos e Tokens “onde você muda seu ícone de invocador” e afirma que haverá abas específicas eles dentro da seção “Customize Identity” (Riot Games, 2022b). Assim, sem recorrer a qualquer disputa social, a plataforma assume que o jogo oferece um dispositivo formal de apresentação do sujeito, isto é, um mecanismo de produção de sentido voltado à leitura pública da identidade. ↩
- O contraste entre a abundância de signos identitários e a negativa de propriedade e de conversão monetária se sustenta nas cláusulas que vedam transferência e resgate por dinheiro do mundo real, recusam titularidade e negam valor monetário aos dados e conteúdos nos servidores (Riot Games, 2024e). Esse arranjo mostra que, do ponto de vista institucional, a relevância prática do conteúdo virtual é interna ao ecossistema e se realiza como legibilidade, distinção e reconhecimento, não como utilidade técnica nem como ativo externo. ↩
- Neste contexto, o rizoma remete a uma estrutura de crescimento em rede, sem um tronco central único, que se expande por múltiplos pontos de conexão. ↩
- “En cambio (excepto en el caso de los procesos simples de estimulación), cualquier proceso de comunicación entre seres humanos —o entre cualquier otro tipo de aparato “inteligente”, ya sea mecánico o biológico— presupone un sistema de significación como condición propia necesaria.” (Eco, 2000, p. 25). ↩
- “Pero la producción de signos es posible (especialmente en el caso de producción de contextos) sólo gracias a las reglas previstas proporcionadas por el código y con frecuencia el código se entiende no sólo como regla de correlación, sino también como conjunto de reglas combinatorias (en otros términos, se ve el código como competencia […].” (Eco, 2000, p. 144). ↩
- "Por tanto, un código como ‘lengua’ debe entenderse como una suma de nociones (algunas relativas a reglas combinatorias de los elementos sintácticos y otras referentes a las reglas combinatorias de los elementos semánticos) que constituyen la competencia total del hablante. Pero esa competencia generalizada es la suma de las competencias individuales que dan origen al código como convención colectiva.” (Eco, 2000, p. 198). ↩
- “El Modelo Semántico Reformulado pretende insertar en la representación semántica todas las connotaciones codificadas que dependen de las denotaciones correspondientes, junto con las SELECCIONES CONTEXTUALES y CIRCUNSTANCIALES. Dichas selecciones distinguen los recorridos de lectura del semema como enciclopedia, y determinan la asignación de muchas denotaciones y connotaciones. No son materia de cоnocimiento empírico y ad hoc de los referentes, sino elementos de información codificada, es decir, unidades semánticas del mismo tipo que las marcas, sólo que desempeñan una función de CAMBIO DE VIA (en el sentido ferroviario de esta expresión).” (Eco, 2000, p. 169). ↩