Técnica e mídia
Jacques Ellul
A abertura de capítulo que declara a função deste autor está em Fundamentos.
Na lista de referências
- ELLUL, Jacques. A técnica e o desafio do século. Tradução e prefácio de Roland Corbisier. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1968.
Onde a tese o cita
37 trechos, na ordem da tese.
Em seu período de pós-doutoramento, Vanderburg (Ellul, 2015, [p. 1]) foi supervisionado pelo professor Jacques Ellul.
Jacques Ellul (1968) descreve a técnica como um sistema que deixa de operar como simples instrumento e passa a se apresentar como realidade própria, já não limitada a ser meio, mas capaz de impor sua lógica como objeto em si (Ellul, 1968, p. 65).
Essa dinâmica se orienta pela eficiência e tende a selecionar automaticamente o método mais eficaz, de modo que, uma vez medido e estabelecido o critério de eficiência, a técnica se consolida e se expande por sua própria força (Ellul, 1968, p. 82-83).
A técnica chega a um ponto em que passa a transformar-se e a progredir com baixa intervenção decisiva do homem (Ellul, 1968, p. 88-89).
Por isso, seus efeitos ultrapassam o plano produtivo e assumem dimensão civilizacional, na medida em que a técnica se expande por todos os domínios, tende a reduzir o homem à condição de objeto e se impõe como substância do mundo social, podendo ser descrita como uma civilização inteira (Ellul, 1968, p. 5; p. 128).
Nesse cenário, valores e finalidades perdem centralidade porque a racionalidade técnica opera como máquina de instrumentalização, convertendo tudo em meio e deslocando o critério de decisão para a performance do método e para aquilo que funciona melhor (Ellul, 1968, p. 145).
Ellul (1968) insiste que o fenômeno técnico não pode ser tratado como um setor particular da modernidade, porque tende a atravessar os próprios elementos da civilização.
O ponto decisivo é que, em qualquer domínio em que seja aplicada, a técnica se apresenta como processo racional, o que desloca o problema social para um problema de método (Ellul, 1968, p. 81).
Ellul (1968) vincula a obsessão por eficiência e produtividade à produção de uma atmosfera inumana, na qual o trabalho se desumaniza e o homem se afasta da natureza (Ellul, 1968, p. 3).
No plano político-econômico, ele sustenta que a técnica favorece a formação de uma aristocracia de técnicos, capaz de concentrar saberes e decisões em circuitos opacos e pouco acessíveis ao público leigo (Ellul, 1968, p. 165).
Quando esse quadro se articula ao Estado, a democracia se fragiliza porque o debate público tende a ser substituído por gestão e por mecanismos de persuasão, com efeitos corrosivos sobre a faculdade de discernimento do cidadão (Ellul, 1968, p. 281).
Para Jacques Ellul (1968), “técnica” não equivale a máquinas, nem ao aparato mecânico tomado isoladamente: “Quem diz técnica pensa imediatamente em máquina”, mas essa identificação é um erro recorrente (Ellul, 1968, p. 1).
Isso porque a técnica “assumiu agora autonomia quase completa em relação à máquina”, ultrapassando o estatuto de simples instrumento e passando a operar como um fenômeno próprio (Ellul, 1968, p. 2).
Nessa chave, a técnica se apresenta como racionalização orientada pela eficiência, na medida em que o método “satisfatório” e “eficiente” tende a se impor por si mesmo — o “the one best way” antes mencionado — e, com isso, a decisão técnica passa a ter a forma de uma necessidade objetiva: “não há escolha entre dois métodos técnicos: um se impõe fatalmente porque seus resultados são contados, medidos, patentes e indiscutíveis” (Ellul, 1968, p. 83).
Por penetrar “em todos os domínios e no próprio homem” e tender a envolver o máximo de domínios para ser eficaz, a técnica deixa de ser apenas objeto para o homem e “torna-se sua própria substância”, adquirindo alcance totalizante (Ellul, 1968, p. 5).
Nessa generalização, seus critérios de desempenho se convertem em medida prática de decisão social, e a autonomia do sistema técnico restringe a possibilidade de deliberação humana sobre fins: “a autonomia da técnica impede, pois, atualmente, ao homem, escolher seu destino” (Ellul, 1968, p. 143).
Por isso, o fenômeno técnico não se reduz a máquinas ou aparatos materiais, pois inclui fatores de organização e modos utilitários de pensamento que estruturam o social (Ellul, 1968, p. 1-5).
Nesse quadro, a técnica se apresenta como indiferente a julgamentos morais e rompe com a crença de que progresso técnico equivaleria, por si só, a progresso humano (Ellul, 1968, p. 117).
autoacréscimo, indivisibilidade e autonomia, com efeitos capazes de alcançar todos os aspectos da vida humana, inclusive a redução do homem à condição de objeto (Ellul, 1968, p. 66-80).
É nesse contexto que Ellul descreve o automatismo da escolha técnica como procura cega pela “melhor maneira” de realizar uma tarefa, com perda de um critério holístico de adequação e indiferença crescente às consequências sociais, morais ou estéticas produzidas pelo método (Ellul, 1968, p. 82-88).
No plano da artificialidade, Ellul afirma que a técnica moderna se opõe à natureza e constitui um sistema composto por meios artificiais, no qual a intervenção técnica reduz o real a um “esquema lógico” e reorganiza fatos e fenômenos segundo exigências internas de racionalização (Ellul, 1968, p. 82).
Esse ambiente rompe com o lastro tradicional, pois a técnica rejeita a tradição e passa a se apoiar na combinação e na evolução acelerada de processos técnicos anteriores, em ritmo rápido demais para integração plena ao tecido cultural acumulado (Ellul, 1968, p. 13).
A economia, nesse quadro, torna-se progressivamente dependente da técnica e de seus métodos, até o ponto em que a técnica deixa de funcionar como instrumento econômico subordinado e passa a ditar as condições do próprio jogo econômico (Ellul, 1968, p. 152-162).
Ellul caracteriza a técnica como instrumento fundamental do poder estatal, especialmente no Estado moderno, cada vez mais dependente de procedimentos técnicos para administrar, regular, controlar e fazer guerra (Ellul, 1968, p. 233-238).
Essa dependência molda a estrutura estatal, favorece centralização e burocratização e altera a própria natureza do Estado, que passa a operar como organismo técnico, limitado pelas formas de percepção e decisão que sua racionalidade administrativa torna disponíveis (Ellul, 1968, p. 257-260).
Ao examinar técnicas diretamente dirigidas ao homem, voltadas à modificação de comportamento, necessidades e disposições subjetivas, Ellul identifica técnicas psicológicas, sociológicas e biométricas como manifestações expressivas de tentativas de controle e manipulação da pessoa humana (Ellul, 1968, p. 325-331).
O autor também observa que a própria modificação técnica do espaço pode condicionar comportamentos, o que amplia o problema para além de instrumentos isolados e alcança a organização ambiental da ação humana (Ellul, 1968, p. 331-335).
Ao final de sua obra, Ellul questiona a crença no progresso técnico como sinônimo objetivo de progresso humano e formula um apelo à responsabilidade individual e coletiva diante da técnica (Ellul, 1968, p. 441-445).
Esse conjunto permite identificar o ponto de passagem para o problema jurídico: ao reduzir o real a “esquema lógico” e recusar julgamentos externos quando o problema é apresentado como técnico, a técnica comprime o espaço de deliberação sobre fins e desloca a decisão para a linguagem da eficiência (Ellul, 1968, p. 82; p. 136).
No plano da racionalidade operativa, o deslocamento aparece quando, para escapar ao “arbítrio e subjetividade” e ao “julgamento ético”, a técnica exige que a realidade seja reduzida ao número (Ellul, 1968, p. 17).
Para o “técnico do direito”, a referência decisiva tende a deixar de ser a finalidade normativa e passa a ser a eficiência de aplicação, já que “todo o direito depende de sua eficiência” e “um direito que não é aplicado não é um direito” (Ellul, 1968, p. 299).
Nessa pressão por desempenho e operacionalidade, conflitos normativos tendem a ser reconfigurados como problemas de gestão e conformidade, tornando mais difícil deliberar sobre fins quando a autonomia técnica estreita o espaço de escolha sobre meios e rumos coletivos (Ellul, 1968, p. 143).
Ellul (1968) descreve a técnica como um processo que tende a se impor na prática com força de necessidade, não por ser “boa” ou “má”, mas porque, uma vez disponível, passa a ser utilizada.
O autor formula isso de modo direto ao afirmar que “tudo o que é técnico, sem distinção de bem e de mal, é forçosamente utilizado quando está ao nosso dispor”, o que desloca o debate público do campo da escolha moral para o campo da adoção inevitável (Ellul, 1968, p. 102-103).
Ao tratar do cinema, por exemplo, Ellul observa que a censura pode limitar temas, mas não toca “o essencial”, que é a “modificação psíquica do homem” provocada pela “violenta impressão do filme”; a emoção inevitável “modifica o tônus psicológico” e tende a fazer do homem “o componente de uma multidão” (Ellul, 1968, p. 291).
Ellul (1968, p. 82-85) descreve a técnica moderna como metódica e sistemática, características que também moldam a dinâmica da indústria do entretenimento ao explorar tecnologias para maximizar seu alcance e engajamento.
Sob Postman (2006) e Ellul (1968), a técnica impõe racionalidades, ritmos e critérios de pertinência que reordenam a experiência social e tornam certas consequências previsíveis sem que sejam apresentadas como decisões normativas explícitas.