Seção 3.1.1 · p. 92 a 98
3.1.1 Autonomia da técnica e reorganização da vida social
p. 92
A noção elluliana de autonomização da técnica permite compreender como a eficiência passa a operar como critério dominante de organização social. A técnica deixa de figurar como simples instrumento subordinado a finalidades externas e passa a constituir um sistema de racionalização capaz de condicionar práticas, expectativas e instituições. Nesse deslocamento, inclusive o Direito passa a ser pressionado por critérios de desempenho, operacionalidade e adaptação funcional.
Essa chave aparece, em escala reduzida, no modo como jogos operados por plataforma normalizam atualizações contínuas, recalibrações e reconfigurações de valor. A alteração unilateral de um item cosmético ou o redesenho de um personagem não surgem como eventos extraordinários, mas como manifestações ordinárias de um sistema que ajusta a si próprio segundo critérios internos de eficiência, equilíbrio e retenção. Ellul é mobilizado43 para explicar por que essa lógica tende a deslocar o debate do campo dos fins, isto é, daquilo que se deve preservar e das expectativas que foram produzidas, para o campo do método, isto é, daquilo que “funciona melhor” para o sistema. Com isso, o desenho técnico se revela como locus de poder e como dimensão relevante para a qualificação jurídica posterior.
Em Ellul, a conversão da técnica em ambiente decorre do deslocamento moderno da técnica de um conjunto de instrumentos para uma racionalidade totalizante, presente em métodos de organização, procedimentos, padrões decisórios e formas de administração do real. Unificada pela eficiência mensurável, a técnica passa a operar menos como meio subordinado a finalidades substantivas e mais como regime capaz de reorganizar valores, expectativas e instituições, reconfigurando a própria gramática do que conta como “adequado”, “melhor” e “possível” no cotidiano. Por isso, o fenômeno técnico não se reduz a máquinas ou aparatos p. 93 materiais, pois inclui fatores de organização e modos utilitários de pensamento que estruturam o social (Ellul, 1968, p. 1-5).
Ao desenvolver a caracterologia da técnica44, Ellul descreve uma evolução marcada pela busca de eficiência, pela expansão do automatismo e pela formação de estruturas de autocrescimento, traços que distinguem a técnica moderna das formas anteriores. Nesse quadro, a técnica se apresenta como indiferente a julgamentos morais e rompe com a crença de que progresso técnico equivaleria, por si só, a progresso humano (Ellul, 1968, p. 117). A distinção entre técnica antiga e moderna explicita esse deslocamento: enquanto a primeira permanece vinculada ao empirismo e a um desenvolvimento lento, a segunda se caracteriza por universalidade,
racionalidade
objetiva,
artificialidade,
automatismo,
autoacréscimo, indivisibilidade e autonomia, com efeitos capazes de alcançar todos os aspectos da vida humana, inclusive a redução do homem à condição de objeto (Ellul, 1968, p. 66-80).
A racionalidade da técnica moderna opera pela aplicação da lógica à busca de eficiência máxima, o que tende a rebaixar valores não traduzíveis em desempenho mensurável. É nesse contexto que Ellul descreve o automatismo da escolha técnica como procura cega pela “melhor maneira” de realizar uma tarefa, com perda de um critério holístico de adequação e indiferença crescente às consequências sociais, morais ou estéticas produzidas pelo método (Ellul, 1968, p. 82-88). Quando esse automatismo se instala, a pergunta sobre o que deve ser preservado cede lugar à pergunta sobre o que melhor mantém o sistema funcionando.
No ecossistema de League of Legends, o algoritmo de gerenciamento de partidas torna essa autonomia especialmente visível, porque o pareamento se apresenta como problema de otimização, e não como deliberação sobre a melhor experiência possível para cada indivíduo. A empresa descreve a necessidade de equilibrar simultaneamente “partidas justas”, “preferência de posição” e “filas rápidas”, admitindo que, diante de restrições reais, o sistema redistribua peso entre esses critérios e relaxe parâmetros para que a partida aconteça (Riot Games, 2026a). Nessa gramática, “justiça” deixa de operar como linguagem moral e passa a funcionar como meta estatística, associada à probabilidade aproximada de 50% de vitória por equipe, produzida por média de MMR45 (Riot Games, 2026a). A fruição lúdica não desaparece, mas é comprimida p. 94 por um método que precisa operar sob escassez de oferta, horários, distribuição desigual de funções e variações de habilidade, convertendo o jogador em variável de desempenho em uma arquitetura autoajustável.
Esse ponto se reforça quando a própria empresa explica que o MMR é um número oculto, concebido para operar em sistemas de back-end46 e orientar o encaixe de cada pessoa em partidas equilibradas, enquanto o ranque visível funciona como tradução pedagógica e progressiva dessa medida47 (Riot Games, 2026c). A autonomia técnica, aqui, reside no deslocamento do procedimento decisório relevante para uma camada não transparente, responsável por definir o que conta como equilíbrio e por ajustar continuamente critérios de pareamento para preservar a estabilidade do ecossistema. Quando o tempo de fila se torna restrição determinante, as regras do pareamento tendem a se flexibilizar, e o sistema passa a buscar o “próximo melhor” em vez do “ideal”, porque o método exige que a partida aconteça em horizonte temporal aceitável48 (League of Legends Wiki, [202-?]i)49. O resultado corresponde ao efeito descrito por Ellul: uma escolha técnica apresentada como inevitável porque “funciona melhor” para o sistema, deslocando o debate dos fins para o ajuste contínuo do método.
Essa normalização da mutabilidade técnica também aparece na moldura contratual pela qual o serviço se autoriza a evoluir continuamente. Nos Termos de Serviço, o usuário concorda que a Riot pode alterar, modificar, atualizar, suspender, “nerf” ou restringir o acesso a recursos e partes do serviço, inclusive por atualizações automáticas em segundo plano, com ou sem aviso prévio50 (Riot Games, 2024e). O vocabulário que legitima essa plasticidade é o da melhoria p. 95 constante, da evolução e da segurança, e a experiência do usuário passa a ser tratada como dimensão ajustável do funcionamento sistêmico. Em chave elluliana, a técnica deixa de aparecer como meio subordinado à finalidade de entretenimento e se afirma como ambiente autojustificado, capaz de absorver a fruição como variável de gestão para preservar a estabilidade do ecossistema.
No plano da artificialidade, Ellul afirma que a técnica moderna se opõe à natureza e constitui um sistema composto por meios artificiais, no qual a intervenção técnica reduz o real a um “esquema lógico” e reorganiza fatos e fenômenos segundo exigências internas de racionalização (Ellul, 1968, p. 82). Esse ambiente rompe com o lastro tradicional, pois a técnica rejeita a tradição e passa a se apoiar na combinação e na evolução acelerada de processos técnicos anteriores, em ritmo rápido demais para integração plena ao tecido cultural acumulado (Ellul, 1968, p. 13).
A economia, nesse quadro, torna-se progressivamente dependente da técnica e de seus métodos, até o ponto em que a técnica deixa de funcionar como instrumento econômico subordinado e passa a ditar as condições do próprio jogo econômico (Ellul, 1968, p. 152-162). Neste diapasão, a economia se torna intimamente dependente da técnica, buscando se adaptar às suas exigências e se utilizando de seus métodos para alcançar objetivos.
A relação entre técnica e Estado reforça esse diagnóstico institucional. Ellul caracteriza a técnica como instrumento fundamental do poder estatal, especialmente no Estado moderno, cada vez mais dependente de procedimentos técnicos para administrar, regular, controlar e fazer guerra (Ellul, 1968, p. 233-238). Essa dependência molda a estrutura estatal, favorece centralização e burocratização e altera a própria natureza do Estado, que passa a operar como organismo técnico, limitado pelas formas de percepção e decisão que sua racionalidade administrativa torna disponíveis (Ellul, 1968, p. 257-260).
Ao examinar técnicas diretamente dirigidas ao homem, voltadas à modificação de comportamento, necessidades e disposições subjetivas, Ellul identifica técnicas psicológicas, sociológicas e biométricas como manifestações expressivas de tentativas de controle e manipulação da pessoa humana (Ellul, 1968, p. 325-331). O autor também observa que a própria modificação técnica do espaço pode condicionar comportamentos, o que amplia o problema para além de instrumentos isolados e alcança a organização ambiental da ação humana (Ellul, 1968, p. 331-335). Essa reflexão interessa diretamente aos ecossistemas digitais, p. 96 nos quais ambientes de interface, recompensa, punição e visibilidade são desenhados para orientar condutas, modular expectativas e reduzir margens práticas de liberdade.
A referência elluliana à “inevitabilidade” deve ser tomada como descrição crítica de um efeito de sistema51, isto é, da tendência à naturalização e à autojustificação do técnico, e não como tese normativa segundo a qual a história estaria fechada à contestação. Interessa, sobretudo, o mecanismo pelo qual a técnica se apresenta como destino e retira da visibilidade pública as escolhas e os custos embutidos em seus procedimentos. Essa cautela hermenêutica preserva a força diagnóstica de Ellul sem converter a crítica em fatalismo, permitindo recolocar no desenho das infraestruturas as disputas, alternativas e finalidades que a linguagem da eficiência tende a obscurecer.
Ao final de sua obra, Ellul questiona a crença no progresso técnico como sinônimo objetivo de progresso humano e formula um apelo à responsabilidade individual e coletiva diante da técnica (Ellul, 1968, p. 441-445). Para o autor, a sociedade deve buscar formas efetivas de controle sobre o desenvolvimento técnico, a fim de orientá-lo ao bem humano, ainda que reconheça a impossibilidade de plena adaptação do homem ao fenômeno técnico.
Esse conjunto permite identificar o ponto de passagem para o problema jurídico: ao reduzir o real a “esquema lógico” e recusar julgamentos externos quando o problema é apresentado como técnico, a técnica comprime o espaço de deliberação sobre fins e desloca a decisão para a linguagem da eficiência (Ellul, 1968, p. 82; p. 136). O que não se deixa racionalizar tende a ser tratado como irrelevante, impraticável ou externo ao funcionamento do sistema. Daí a importância de recolocar escolhas técnicas no campo da imputação, pois a aparência de neutralidade pode encobrir finalidades, custos e distribuições de risco que afetam diretamente a experiência de consumo.
Com isso, a técnica passa a organizar a própria percepção do mundo social. Quando economia, administração pública e entretenimento operam sob essa racionalidade, o indivíduo é recodificado em indicadores de desempenho, tempo disponível, engajamento e risco. A p. 97 técnica deixa de ser acessório da vida social e passa a definir o que pode ser visto, medido, governado e contestado.
Essa reorganização também se sedimenta institucionalmente. No plano da racionalidade operativa, o deslocamento aparece quando, para escapar ao “arbítrio e subjetividade” e ao “julgamento ético”, a técnica exige que a realidade seja reduzida ao número (Ellul, 1968, p. 17). O Direito é afetado por essa pressão não apenas porque passa a lidar com objetos tecnicamente complexos, mas porque sua própria prática pode ser absorvida por critérios de eficiência. Para o “técnico do direito”, a referência decisiva tende a deixar de ser a finalidade normativa e passa a ser a eficiência de aplicação, já que “todo o direito depende de sua eficiência” e “um direito que não é aplicado não é um direito” (Ellul, 1968, p. 299). Nessa pressão por desempenho e operacionalidade, conflitos normativos tendem a ser reconfigurados como problemas de gestão e conformidade, tornando mais difícil deliberar sobre fins quando a autonomia técnica estreita o espaço de escolha sobre meios e rumos coletivos (Ellul, 1968, p. 143).
Transposto para o consumo digital, esse diagnóstico permite interpretar jogos eletrônicos, plataformas de streaming e redes sociais não como aplicações isoladas, mas como manifestações específicas dessa técnica-ambiente. Interfaces, algoritmos, sistemas de recompensa e mecanismos de escassez artificial são organizados sob critérios de eficiência, retenção e governança contínua. O que aqui se prepara sob a categoria de Objeto Imaterial de Consumo emerge justamente dessa operação: trata-se de um objeto de existência funcional e continuada, inseparável da infraestrutura técnica que lhe confere acesso, utilidade, estabilidade e sentido prático.
Por isso, uma leitura estritamente material do consumo não captura adequadamente o fenômeno. Quando o objeto é inseparável da arquitetura técnica52 que o sustenta, o problema central deixa de ser apenas a existência de vício em um produto isolado e passa a incluir a forma como a técnica organiza possibilidades de uso, permanência, perda ou degradação ao longo do tempo.
Ellul não é convocado para sustentar uma crítica genérica à modernidade tecnológica, mas para tornar inteligível a ordem técnica em que o OIC se forma. Em ecossistemas digitais, a relação de consumo não se reduz à troca de uma prestação por um preço; ela se instala em ambiente organizado por métricas, automatismos, regimes de acesso e procedimentos de p. 98 atualização contínua. A fruição do objeto torna-se inseparável do funcionamento da ambiência técnica, razão pela qual arquitetura e governança não podem ser tratadas como exterioridades do fornecimento, mas como dimensões materiais da própria relação de consumo. A seguir, essa ambiência será combinada à reconfiguração midiática da experiência, com Postman, e à dessimbolização cultural e publicitária, com Vanderburg, preparando a passagem para a Lex Plataformae e para a vulnerabilidade semiótica.
Notas
- Intitulada A Técnica e o Desafio do Século, a paradigmática obra central no pensamento do historiador, sociólogo e jurista francês Jacques Ellul, originalmente publicada em 1954, oferece importante panorama conceitual sobre a técnica, seu desenvolvimento e sua influência sobre a sociedade contemporânea. A discussão é dividida em seis momentos, cada um explorando diferentes facetas do fenômeno técnico. Aqui, interessa destacar alguns elementos que permitem compreender como a técnica moderna se converte em ambiente estruturante da vida social e, por consequência, das formas de consumo digital. ↩
- Destarte, Ellul (1968, p. 1) argumenta que a técnica se tornou o fator mais importante na sociedade moderna, superando em influência qualquer outro fenômeno social, e propõe analisar a técnica a partir de seus caracteres intrínsecos, a partir do que denomina “caracterologia da técnica”, uma exploração de sua natureza, das características próprias manifestadas independentemente da sociedade na qual se desenvolve ou se manifesta. ↩
- No suporte oficial, a Riot descreve que o sistema “se concentra em equilibrar três fatores: Partidas justas; Preferência de posição; Filas rápidas”. A própria explicação assume que esses fatores entram em tensão e que, quando o tempo de fila cresce, o sistema se afasta do MMR ou troca alguém de posição para viabilizar o jogo (Riot Games, 2026a). ↩
- Refere-se à camada de infraestrutura, processamento de dados e regras que opera exclusivamente nos servidores da plataforma, fora da visão e do controle direto do usuário. É o local onde se processam os sistemas de decisão, como o cálculo de métricas ocultas, que estruturam a lógica interna do serviço. ↩
- Ao se propor a explicar a MMR, a Riot afirma expressamente: “Seu MMR é… segredo!” e justifica que “foi especialmente criado para trabalhar com sistemas de back-end” voltados a colocar “cada pessoa numa partida equilibrada”, razão pela qual ele não se desassocia desses sistemas sem perda de contexto. A formulação deixa claro que o jogador é legível como número funcional ao pareamento (Riot Games, 2026c). ↩
- Quanto ao estatuto do uso subsidiário de repositórios colaborativos (como o Fandom) para nomeação de categorias e descrição operacional mínima de mecânicas, adota-se o critério já fixado no Capítulo 2, segundo o qual esse material não é empregado para provar promessas institucionais, critérios internos de decisão ou marcos oficiais de mudança, operando apenas como apoio técnico-operacional e como pista para localização de documentação primária quando esta se fizer necessária. No verbete Queuing and Matchmaking, o mecanismo é descrito como orientado por “time constraint”, pois o jogo precisa acontecer. O texto explica que, quando o pareador não encontra jogadores dentro das limitações mais estritas, ele “loosen[s] the restrictions a little” e reinicia a busca, o que tende a aumentar desvios de habilidade em situações persistentes de escassez. Isso materializa a ideia de automatismo e do “próximo melhor” como regra de funcionamento (League of Legends Wiki, [202-?]i). ↩
- A indicação “[202-?]” segue a estrutura de data aproximada admitida pela ABNT para referências bibliográficas, indicando década provável de publicação, no caso, os anos 2020, sem confirmação do ano específico. A forma “[202-]” indicaria década certa, mas ano não identificado. ↩
- Nos Termos de Serviço, a Riot trata a evolução do serviço como normalidade e a ancora em consentimento do usuário. Registra que, “em um esforço para melhorar constantemente os Serviços da Riot”, o fornecedor pode “alterar, modificar, atualizar, suspender, ‘nerf’ ou restringir” o acesso a recursos e partes do serviço. Na sequência, prevê que pode “usar patches em segundo plano para atualizar automaticamente nossos jogos e software com ou sem aviso prévio” (Riot Games, 2024e). ↩
- Ellul (1968) descreve a técnica como um processo que tende a se impor na prática com força de necessidade, não por ser “boa” ou “má”, mas porque, uma vez disponível, passa a ser utilizada. O autor formula isso de modo direto ao afirmar que “tudo o que é técnico, sem distinção de bem e de mal, é forçosamente utilizado quando está ao nosso dispor”, o que desloca o debate público do campo da escolha moral para o campo da adoção inevitável (Ellul, 1968, p. 102-103). Essa dinâmica alcança também o universo do lazer e da cultura de massa, onde os meios técnicos operam efeitos que não se limitam ao conteúdo explícito. Ao tratar do cinema, por exemplo, Ellul observa que a censura pode limitar temas, mas não toca “o essencial”, que é a “modificação psíquica do homem” provocada pela “violenta impressão do filme”; a emoção inevitável “modifica o tônus psicológico” e tende a fazer do homem “o componente de uma multidão” (Ellul, 1968, p. 291). Nesse movimento, a técnica não apenas amplia meios de diversão, mas reorganiza disposições subjetivas e padrões coletivos de percepção, contribuindo para processos mais amplos de massificação social. ↩
- Ellul (1968, p. 82-85) descreve a técnica moderna como metódica e sistemática, características que também moldam a dinâmica da indústria do entretenimento ao explorar tecnologias para maximizar seu alcance e engajamento. Neste sentido, a experimentação e a pesquisa se tornam elementos essenciais no desenvolvimento da técnica, o que acaba por limitar seu desenvolvimento ao conhecimento passível de obtenção apenas a partir da experimentação disciplinada. ↩