Poder e subjetividade
Byung-Chul Han
A abertura de capítulo que declara a função deste autor está em Fundamentos.
Na lista de referências
- HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Tradução de Enio Paulo Giachini. Petrópolis: Vozes, 2015.
- HAN, Byung-Chul. Psychopolitics: neoliberalism and new technologies of power. Translated by Erik Butler. London; New York: Verso, 2017.
Onde a tese o cita
17 trechos, na ordem da tese.
Byung-Chul Han (2015; 2017) é empregado como lente para descrever adesão e autoajuste por desempenho, comparação e expectativa, qualificando a sujeição como efeito estrutural de incentivos e de gestão de risco simbólico, em vez de atribuí-la a fragilidades individuais.
Byung-Chul Han sustenta que a positividade do poder pode ser mais eficiente do que a negatividade do dever, de modo que o sujeito de desempenho tende a ser mais rápido e mais produtivo do que o sujeito da obediência, embora essa mutação não apague a disciplina, pois o sujeito de desempenho permanece disciplinado e carrega consigo o estágio disciplinar (Han, 2015, [p. 15]).
Nesse sentido, Han descreve o paradoxo pelo qual a liberdade, quando convertida em dever de desempenho ilimitado, passa a produzir coerção com mais eficiência do que a obrigação disciplinar, que tende a encontrar limites (Han, 2017, [p. 8-9]).
Byung-Chul Han descreve o sujeito contemporâneo como “senhor e soberano de si mesmo”, liberto da instância externa que o obrigaria a trabalhar, e justamente por isso colocado em uma situação na qual a queda do dominador não conduz à liberdade, mas faz “liberdade e coação coincidarem”, de modo que o sujeito “se entrega à liberdade coercitiva” e à “livre coerção de maximizar o desempenho” (Han, 2015, [p. 16]).
Han sustenta que um poder inteligente não disciplina a psique por coerção ou proibição, mas se aproxima dela e a convoca a participar e a compartilhar, explorando a liberdade mais do que a negando, justamente porque consegue operar sem se apresentar como poder (Han, 2017, [p. 18]).
Nessa linha, ao contrastar o panóptico disciplinar com o panóptico digital, Han observa que os ocupantes do novo dispositivo colaboram com seu funcionamento por meio de autoiluminação e autoexposição voluntárias (Han, 2017, [p. 13]).
Byung-Chul Han formula esse contraste ao sustentar que a promessa de autoconhecimento por números falha no nível mais básico, pois o acúmulo de registros não produz narrativa, e um sentido de si depende de prestar contas de uma trajetória, e não de somar indicadores dispersos, razão pela qual a lógica do Quantified Self tende a decompor o eu em dados até esvaziar o próprio sentido (Han, 2017, [p. 50]).
Han afirma que o sujeito digitalizado e em rede carrega um panóptico interior, no qual guardião e prisioneiro se confundem, fazendo com que o controle deixe de depender apenas de um olhar exterior e passe a operar como autovigilância (Han, 2017, [p. 51]).
Byung-Chul Han afirma que o neoliberalismo constitui um sistema altamente eficiente para explorar a liberdade e capturar práticas e formas expressivas associadas à autonomia, como emoção, jogo e comunicação, sustentando que explorar pessoas contra a vontade é ineficiente e que os retornos são maximizados quando a própria liberdade é explorada (Han, 2017, [p. 9-10]).
Han descreve que, no presente, cada indivíduo tende a se tornar trabalhador autoexplorador em sua própria empresa, acumulando na mesma figura as posições de comando e submissão, e que até mesmo a luta de classes pode ser vivida como luta interior contra si, sob condições definidas pela solidão do empreendedor isolado e autocombativo, que pratica autoexploração de modo voluntário (Han, 2017, [p. 11]).
A linguagem operacional desse processo aparece na transformação da vida em regime de otimização mensurável, no qual fraquezas e erros devem ser eliminados para maximizar eficiência e performance, e no qual tudo é feito para ser comparável e mensurável sob a lógica de quantificação do sucesso no mercado, não por busca da vida boa, mas por constrangimentos sistêmicos (Han, 2017, [p. 28]).
Han observa que jogos exibem uma temporalidade marcada por sucesso e recompensa imediatos, mas que aquilo que amadurece no tempo não pode ser gamificado, porque o que é longo e duradouro tende a se mostrar incompatível com a temporalidade do jogo, de modo que a caça se ajusta ao regime de recompensas, enquanto a agricultura, dependente de processos lentos e crescimento silencioso, não se deixa converter em pontuação e níveis, pois a vida não pode ser reduzida a caça permanente (Han, 2017, [p. 43]).
Na obra Psychopolitics: Neoliberalism and New Technologies of Power, originalmente intitulada Psychopolitik., o filósofo sul-coreano radicado na Alemanha, Byung-Chul Han (2017), propõe uma leitura das formas contemporâneas de poder a partir do deslocamento da coerção externa para mecanismos de exploração internalizada.
In this way, Capital continuously ‘brings forth living offspring’. Today, individual freedom is taking on excessive forms; ultimately, this amounts to nothing other than the excess of Capital itself.“ (Han, 2017, [p. 9-10], grifos do original)
That said, this process is destroying human communication.” (Han, 2017, [p. 43], grifo do original).
Han descreve esse mecanismo ao sustentar que a sociedade digital de controle faz uso intensivo da liberdade, precisamente porque depende de autoexposição e de autotransparência voluntárias para funcionar (Han, 2017, p. [13-14]).
That is why the digital panopticon proves so efficient.” (Han, 2017, p. [13-14])