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Lex Plataformae

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Seção 4.2.3 · p. 351 a 363

4.2.3 Psicopolítica, autoexploração e cativeiro identitário

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p. 351

Quando a governança por arquitetura e por informação se estabiliza como administração privada de acesso, visibilidade, permanência e sanção, ela produz um poder que não incide apenas sobre escolhas pontuais, mas sobre as condições de viabilidade econômica e de reconhecimento social no interior do ecossistema. A fruição que sustenta o valor do OIC depende de uma posição legível e comparável, e essa posição se preserva pela aderência a critérios de reconhecimento, ritmos de atualização e padrões de desempenho instituídos pelo p. 352 próprio ambiente. A vulnerabilidade não se esgota em assimetria informacional ou preferências individuais, porque a permanência e o pertencimento passam a ser recursos governados, capazes de produzir autoajuste, disciplina e adesão como efeitos estruturais do mercado administrado.

A passagem do modelo disciplinar para um regime de desempenho permite descrever a sujeição contemporânea sem recorrer à análise psicológica individual, pois o eixo da conformidade deixa de depender de proibições externas e passa a operar por positividade produtiva e internalização de exigências. Byung-Chul Han382 sustenta que a positividade do poder pode ser mais eficiente do que a negatividade do dever, de modo que o sujeito de desempenho tende a ser mais rápido e mais produtivo do que o sujeito da obediência, embora essa mutação não apague a disciplina, pois o sujeito de desempenho permanece disciplinado e carrega consigo o estágio disciplinar (Han, 2015, [p. 15]). Esse deslocamento ajuda a compreender por que ambientes governados por métricas, comparação e incentivo contínuo podem produzir autoajuste estável sem coerção ostensiva, uma vez que a própria liberdade passa a funcionar como veículo de exigência. Nesse sentido, Han descreve o paradoxo pelo qual a liberdade, quando convertida em dever de desempenho ilimitado, passa a produzir coerção com mais eficiência do que a obrigação disciplinar, que tende a encontrar limites (Han, 2017, [p. 8-9]). O ponto é que a aderência ao ecossistema pode ser produzida como efeito estrutural, porque conservar comensurabilidade pública e acesso efetivo a reconhecimento exige recalibração contínua sob critérios definidos pelo ambiente, convertendo desempenho e permanência em condição prática de fruição.

No regime do OIC, reconhecimento, visibilidade e permanência não funcionam como efeitos laterais do consumo, pois integram as condições materiais pelas quais a fruição se torna valiosa e sustentável no tempo. A plataforma, ao administrar métricas, ranqueamentos, sinais p. 353 de prestígio e formas de comparação pública, estabelece uma gramática de desempenho que organiza o que conta como êxito, aderência e regularidade dentro do ecossistema. O resultado é convergência funcional com o modelo descrito por Han.

A conformidade não depende de comando explícito nem de ameaça frontal, porque o próprio ambiente torna custosa a descontinuidade e torna arriscado o desajuste, na medida em que a perda de legibilidade, a queda de visibilidade e o rebaixamento reputacional afetam diretamente a posição de fruição que constitui o objeto econômico relevante. Nesse contexto, a adaptação do consumidor não exprime traço de personalidade, mas estratégia de permanência em um mercado administrado. O autoajuste se torna racional sob condições em que o valor depende de preservar posição nas hierarquias internas do ecossistema e de manter-se elegível a validação e visibilidade, e a continuidade da fruição passa a exigir acompanhamento de ritmos, expectativas e padrões definidos pela infraestrutura que controla o acesso aos próprios critérios de reconhecimento.

A aderência ao ecossistema governado não precisa ser produzida por proibição frontal para adquirir estabilidade, porque o regime de desempenho tende a converter a própria liberdade em operador de conformidade. Byung-Chul Han descreve o sujeito contemporâneo como “senhor e soberano de si mesmo”, liberto da instância externa que o obrigaria a trabalhar, e justamente por isso colocado em uma situação na qual a queda do dominador não conduz à liberdade, mas faz “liberdade e coação coincidarem”, de modo que o sujeito “se entrega à liberdade coercitiva” e à “livre coerção de maximizar o desempenho” (Han, 2015, [p. 16]). Aqui, o mecanismo decisivo é aquele segundo o qual a disciplina passa a operar sob a forma de realização, iniciativa e autonomia, tornando o autoajuste compatível com o sentimento de escolha, mesmo quando ele se estrutura como obrigação de permanecer eficiente e premiável no interior do ambiente.

A engrenagem se torna mais nítida quando a governança do ecossistema é descrita como produção de aderência por incentivo, exposição e recompensa, e não como imposição por proibição ostensiva. Han sustenta que um poder inteligente não disciplina a psique por coerção ou proibição, mas se aproxima dela e a convoca a participar e a compartilhar, explorando a liberdade mais do que a negando, justamente porque consegue operar sem se apresentar como poder (Han, 2017, [p. 18]). A consequência é que a sujeição não se impõe como silêncio, mas como comunicação e exposição contínuas, e essa participação ativa funciona como recurso de governança.

No League of Legends, esse poder que convoca a liberdade a trabalhar a favor da conformidade se mostra com clareza no regime ranqueado, porque ali o desempenho é traduzido p. 354 em posição, e a posição se torna linguagem pública de valor. A escada competitiva organiza a experiência como trajetória comparável, na qual o indivíduo não apenas joga, mas se mede, se classifica e se disponibiliza ao julgamento do próprio ecossistema. Essa estrutura não precisa de coerção direta para produzir disciplina, pois ela converte a iniciativa em obrigação socialmente inteligível. O que está em jogo não é um “modo de jogo”, mas a produção contínua de um retrato posicional que passa a operar como forma resumida de identidade naquele mundo.

Essa captura se torna ainda mais nítida quando a Riot descreve, ela própria, a diferença entre MMR e ranque como uma tradução institucional do sujeito em números, de modo que a classificação pública aparece como representação “relatável” de um valor calculado que permanece oculto. Ao explicar o sistema, o suporte oficial afirma que o MMR é secreto e que o ranque existe como mecanismo para traduzir esse MMR em uma forma acessível e progressiva para o jogador (Riot Games, 2026h). O efeito disso sobre a psicopolítica do desempenho é direto. A liberdade do jogador se organiza como busca voluntária por adequação ao critério que o mede, mesmo quando o critério é opaco, porque o que se torna visível e socialmente legível é o resultado posicional, e não o funcionamento do cálculo.

Por isso, a escalada ranqueada tende a transformar o lazer em regime de autoexploração racional. A plataforma administra o risco simbólico por meio de categorias de progresso, distribuição e reclassificação, inclusive com mudanças estruturais periódicas que reposicionam o valor do sujeito na escada e redefinem o horizonte do “subir”, “manter” e “merecer” (Riot Games, 2023d)383. A disciplina, aqui, não se apresenta como proibição, mas como convocação permanente a investir tempo, atenção e desempenho para não perder comensurabilidade pública no ambiente. O resultado é que a conformidade não depende de ordem externa. Ela emerge como necessidade interna de preservar legibilidade, evitar queda e sustentar um lugar reconhecível numa hierarquia que a própria infraestrutura produz e recalibra ao longo do tempo.

Essa dependência, como nos demais mecanismos do ecossistema, também não é neutra do ponto de vista do vínculo contratual. As condições de acesso e permanência são fornecidas sob licença revogável e condicionada, e o encerramento de conta implica perda de acesso ao p. 355 ambiente e a dados associados (Riot Games, 2024e)384. Assim, a escada ranqueada não opera como patrimônio destacável. Ela opera como gramática de reconhecimento que só existe enquanto a conta e o serviço permanecem ativos, o que torna a saída, a desaceleração ou o desalinhamento mais custosos do que pareceriam sob uma ontologia de “produto” estático.

Nessa linha, ao contrastar o panóptico disciplinar com o panóptico digital, Han observa que os ocupantes do novo dispositivo colaboram com seu funcionamento por meio de autoiluminação e autoexposição voluntárias (Han, 2017, [p. 13]). A conclusão é que a conformidade pode ser produzida como efeito estrutural de um ecossistema que mobiliza liberdade, desempenho e exposição como gramática de permanência, reduzindo a necessidade de coerção frontal ao mesmo tempo em que intensifica a dependência do sujeito em relação aos critérios que definem reconhecimento e valor.

No League of Legends, a psicopolítica não se manifesta apenas como incentivo para “fazer mais”, mas também como indução para “ser do jeito certo” se o objetivo for permanecer elegível à experiência plena do ecossistema. O sistema de Honra condensa essa lógica ao transformar conduta em variável de reputação administrada, cuja consequência prática não se limita a um juízo moral, pois reorganiza recompensas, privilégios e acesso. O suporte oficial descreve a Honra como reflexo geral do comportamento “dentro e fora de jogo”, afirmando que ela “recompensa” conduta esportiva com benefícios e “penaliza” comportamentos inadequados com recompensas reduzidas e restrição de privilégios de comunicação (Riot Games, 2025a)385. A disciplina, aqui, não precisa aparecer como ameaça explícita, porque se instala como prudência cotidiana do próprio sujeito. O jogador passa a gerir a si mesmo para manter-se premiável e socialmente legível, evitando perdas que não são apenas simbólicas, mas funcionais, na medida em que atingem o que pode ser acumulado, exibido e usufruído na continuidade da fruição.

p. 356 Esse deslocamento do controle para o interior do sujeito fica ainda mais nítido quando a própria política de integridade conecta punições a efeitos materiais sobre progressão e recompensas. Em documento específico sobre restrições de Honra, a Riot descreve que sanções como suspensão e restrição de chat rebaixam nível de Honra, travam progresso e tornam a conta inelegível a recompensas vinculadas a esse regime (Riot Games, 2017b)386. Nesse desenho, a conformidade se produz como autopreservação: não se trata de obedecer por medo abstrato, mas de evitar um rebaixamento que altera a posição do sujeito nas rotinas de recompensa e no acesso a certos benefícios, consolidando a ideia de que permanecer “apto” é parte da própria experiência de consumo. A liberdade, assim, opera como operador de conformidade porque o sujeito antecipa o olhar do ecossistema e ajusta sua conduta para não perder elegibilidade.

Essa lógica transborda o interior do jogo e assume contornos de governança de identidade, pois os Termos de Serviço estabelecem que as Regras de Usuário regem comportamento durante o jogo e também certas condutas fora do jogo, prevendo medidas disciplinares que podem alcançar suspensão temporária, encerramento de conta e até banimento de hardware (Riot Games, 2024e)387. Além disso, o contrato explicita que as Regras de Usuário podem incidir sobre transmissões, vídeos gravados e postagens em redes sociais, e admite a possibilidade de penalidades aplicáveis a múltiplos serviços da Riot, inclusive escalonadas entre jogos (Riot Games, 2024e)388. Nessa combinação, o que se observa é um regime em que o sujeito internaliza o controle como obrigação de permanecer elegível e aceitável diante de critérios que o próprio ecossistema administra, ampliando o campo de incidência da p. 357 normatividade para além do momento estrito da partida. O panóptico deixa de ser apenas olhar exterior porque o indivíduo passa a antecipar a sanção e a ajustar o próprio comportamento para manter-se dentro das fronteiras do premiável, do comunicável e do participável, como condição ordinária de permanência.

Aplicada ao regime do OIC, essa engrenagem revela que o ecossistema não administra apenas acesso a conteúdos, mas governa risco simbólico e posicional como condição de permanência. O valor não se sustenta como atributo estático de um objeto adquirido, pois depende de continuidade de fruição e de preservação de legibilidade pública dentro do ecossistema, de modo que perder visibilidade, pertinência temporal e pertencimento, ou sofrer rebaixamento posicional produz efeitos econômicos que não se reduzem a inconveniente subjetivo.

A plataforma, ao controlar ritmos de atualização, eventos, janelas de acesso, escalas de reputação e formas de comparação, converte a permanência em tarefa e transforma a manutenção do lugar em trabalho contínuo de acompanhamento e ajuste. Nesse contexto, a oferta não se limita a entregar uma utilidade pontual, porque ela organiza um circuito no qual a própria possibilidade de continuar “valendo” depende de aderir a parâmetros de desempenho e de presença que o ecossistema naturaliza como condição de participação.

A gestão desse risco funciona como instrumento de disciplina sem precisar se apresentar como ameaça explícita. O retorno frequente, a atenção constante e a disposição para recalibrar condutas surgem como escolhas racionais sob condições em que o custo do desajuste é a perda de comensurabilidade e a erosão do capital simbólico acumulado, com impacto direto sobre a posição de fruição que constitui o núcleo econômico do OIC.

A conversão de condutas em métricas não se limita a técnica de gestão externa, porque tende a reconfigurar a forma pela qual o sujeito se percebe e se estabiliza no tempo, deslocando identidade de uma estrutura narrativa para uma estrutura aditiva de dados. Byung-Chul Han formula esse contraste ao sustentar que a promessa de autoconhecimento por números falha no nível mais básico, pois o acúmulo de registros não produz narrativa, e um sentido de si depende de prestar contas de uma trajetória, e não de somar indicadores dispersos, razão pela qual a lógica do Quantified Self tende a decompor o eu em dados até esvaziar o próprio sentido (Han, 2017, [p. 50]). O ponto é descrever um tipo de instabilidade que não nasce de introspecção subjetiva, mas da substituição de continuidade narrativa por rastreamento mensurável, fazendo com que a manutenção do eu dependa de indicadores, metas e feedbacks que podem ser continuamente recalibrados por critérios externos.

p. 358 O quadro se adensa quando o registro deixa de ser memória individual e passa a circular como critério de validação, pois o rastreamento se transforma em vigilância de si e conecta autoexploração, auto-observação e manutenção de reputação. Han afirma que o sujeito digitalizado e em rede carrega um panóptico interior, no qual guardião e prisioneiro se confundem, fazendo com que o controle deixe de depender apenas de um olhar exterior e passe a operar como autovigilância (Han, 2017, [p. 51]). A consequência é que avaliação contínua deixa de ser apenas olhar do ambiente e se torna olhar internalizado, transformando o autoajuste em exigência ordinária de permanência sob métricas de desempenho e exposição que o próprio sujeito ajuda a produzir e a alimentar.

Quando a experiência passa a ser organizada por mensuração e comparação contínuas, a conformidade deixa de depender de comando explícito e se instala como efeito ordinário de um ambiente que premia previsibilidade. A transparência operada por métricas e correlações não funciona apenas como ampliação de informação disponível, pois ela transforma padrões estatísticos em referência prática de normalidade, estreitando o espaço do desvio e deslocando o custo do desalinhamento para a própria possibilidade de permanecer visível e validado. No regime do OIC, esse estreitamento tem consequência econômica direta, porque a posição de fruição depende de permanecer comensurável e reconhecível dentro do ecossistema, e a infraestrutura controla os indicadores e os filtros que definem o que aparecerá como desempenho adequado. O resultado é um regime de autoajuste no qual a manutenção de pertencimento e de valor posicional se torna dependente de aderir a parâmetros mensuráveis que o ambiente mede e recompensa, convertendo mensurabilidade em instrumento de governança.

O efeito institucionalmente relevante desse quadro pode ser descrito como cativeiro identitário. A expressão não designa aprisionamento físico nem supõe incapacidade de agir, mas nomeia dependência prática, pela qual a continuidade da fruição e a estabilidade da identidade simbólica passam a ser mediadas pelo ecossistema administrado. Quando a posição de fruição se ancora em sinais de prestígio, repertórios acumulados, registros de desempenho, visibilidade e pertencimento, a plataforma governa as condições de preservação de um lugar socialmente reconhecível ao distribuir legibilidade pública por métricas, ranqueamento e critérios internos de elegibilidade. Nesse contexto, sair, desacelerar ou desalinhar não aparece como simples escolha neutra, pois tende a implicar perda de legibilidade e colapso dos sinais que sustentam comensurabilidade pública, com rebaixamento da posição que dava sentido econômico à fruição. A permanência passa a depender de alinhamento contínuo a padrões p. 359 operacionais mutáveis, e a saída deixa de ser simples substituição de serviço, porque envolve descontinuidade de prestígio, comparabilidade e pertencimento.

Essa dependência de reconhecimento administrado é juridicamente relevante porque torna integridade e identidade variáveis governadas da fruição e exige, no plano dogmático, deveres reforçados de transparência qualificada, contestabilidade, auditabilidade e recomposição proporcionais ao tipo de poder exercido pela Lex Plataformae.

A dependência se consolida porque a plataforma concentra a administração de métricas, de critérios de reconhecimento e de trajetórias de exposição, ao mesmo tempo em que recalibra, com liberdade, o que conta como desempenho adequado e quais condutas serão premiáveis ou puníveis. O resultado é um custo de saída que não se esgota em perda patrimonial pontual, pois envolve descontinuidade de uma narrativa de si que foi construída, medida e validada no interior do ambiente, além de perda de acesso aos próprios parâmetros que tornavam essa narrativa inteligível. O cativeiro identitário, assim, é a forma pela qual o poder de governança se traduz em sujeição estável sem coerção ostensiva, porque a preservação da fruição exige permanência sob critérios variáveis e a preservação da identidade simbólica exige continuidade de reconhecimento sob sinais que não pertencem ao consumidor, mas à infraestrutura que os define e os distribui.

A barreira de saída pode ser descrita como uma forma de morte social no interior do ecossistema. A expressão não opera como dramatização moral, mas como descrição funcional do efeito produzido quando a plataforma concentra os registros que sustentam pertencimento e relevância, isto é, histórico, repertório, posição ranqueada, sinais de prestígio, vínculos comunitários e rastros de participação. Abandonar o ambiente, nessas condições, não se assemelha a migrar de um serviço para outro, porque implica interromper a própria existência socialmente reconhecível naquele mundo, com perda de continuidade simbólica e apagamento prático de marcas de trajetória que se tornaram condição de comensurabilidade pública. A saída, portanto, não se apresenta como decisão neutra de consumo, pois o custo não se limita ao preço pago ou ao acesso a uma utilidade, alcançando a sobrevivência posicional do consumidor em uma gramática de reconhecimento que o próprio ecossistema monopoliza.

Esse efeito estabiliza o cativeiro identitário por um mecanismo adicional, que não depende de coerção formal nem de ameaça direta, mas de autopreservação reputacional. Se o valor experiencial do OIC se ancora em sinais de status, consistência de desempenho, pertencimento e memória social, qualquer crítica que coloque em risco a legitimidade do ecossistema ou a estabilidade de suas hierarquias tende a ser percebida como ameaça ao próprio investimento identitário do consumidor. Forma-se, assim, um circuito de defesa do ambiente p. 360 em que usuários se convertem em agentes de conformidade, não por servilismo, mas por necessidade de proteger o capital simbólico acumulado e o sentido de existência social que dele decorre. A plataforma, ao organizar o reconhecimento como recurso escasso e ao condicionar sua distribuição a métricas e regras internas, produz incentivo estrutural para que a própria comunidade opere como instância de vigilância e contenção de dissenso, elevando o custo social do desalinhamento e reduzindo o espaço de contestação efetiva.

O que torna esse regime particularmente estável é que sua engrenagem não depende de coerção externa contínua, pois opera por exploração da liberdade como recurso econômico. Byung-Chul Han afirma que o neoliberalismo constitui um sistema altamente eficiente para explorar a liberdade e capturar práticas e formas expressivas associadas à autonomia, como emoção, jogo e comunicação, sustentando que explorar pessoas contra a vontade é ineficiente e que os retornos são maximizados quando a própria liberdade é explorada389 (Han, 2017, [p. 9-10]). O ambiente governado não precisa se impor como proibição para obter aderência, pois ele incentiva, premia e faz do engajamento uma condição de permanência, convertendo iniciativa e participação em matéria-prima de conformidade.

Essa eficiência se aprofunda quando a exploração deixa de se apresentar como relação visível entre dominador e dominado e passa a ser internalizada como dinâmica ordinária do sujeito consigo mesmo. Han descreve que, no presente, cada indivíduo tende a se tornar p. 361 trabalhador autoexplorador em sua própria empresa, acumulando na mesma figura as posições de comando e submissão, e que até mesmo a luta de classes pode ser vivida como luta interior contra si, sob condições definidas pela solidão do empreendedor isolado e autocombativo, que pratica autoexploração de modo voluntário (Han, 2017, [p. 11]). O efeito estrutural é a neutralização de fricções que, em outros regimes, tornariam o conflito social mais visível e contestável, porque a pressão é vivida como obrigação íntima de desempenho e não como imposição externa atribuível a um agente identificável.

A linguagem operacional desse processo aparece na transformação da vida em regime de otimização mensurável, no qual fraquezas e erros devem ser eliminados para maximizar eficiência e performance, e no qual tudo é feito para ser comparável e mensurável sob a lógica de quantificação do sucesso no mercado, não por busca da vida boa, mas por constrangimentos sistêmicos (Han, 2017, [p. 28]). A tríade compõe a engrenagem de conformidade em ecossistemas de plataforma: liberdade é convocada como participação, participação é capturada como produtividade, e produtividade é estabilizada como comparabilidade, de modo que o sujeito se ajusta para permanecer premiável e reconhecível. O usuário se torna um agente prático da própria sujeição dentro de um ambiente em que um terceiro - não adstrito a quaisquer padrões efetivos de transparência - administra métricas, visibilidade e permanência como condições “legítimas” de valor.

O resultado importa juridicamente porque desloca o conflito do vocabulário da escolha para o plano das condições de governança que produzem, calibram e tornam economicamente relevante aquilo que se apresenta como escolha. Em regimes de OIC, a permanência do valor depende de reconhecimento e continuidade de fruição, e esses elementos não decorrem de vontade isolada do consumidor, pois são administrados por critérios de visibilidade, comparação e sanção que a plataforma define, aplica e recalibra. A sujeição descrita, portanto, não é traço moral nem patologia individual, mas efeito previsível de um ambiente em que desempenho, exposição e mensurabilidade funcionam como gramática de permanência. Quando a continuidade da fruição exige autoajuste e quando o custo do desajuste se manifesta como perda de posição, de legibilidade e de pertencimento, o ambiente passa a operar como mecanismo produtor de vulnerabilidade, porque transforma risco simbólico e posicional em instrumento de conformidade.

Esse deslocamento impede que o problema seja tratado como simples assimetria informacional corrigível por aviso formal, ou como dinâmica concorrencial neutra resolvida por alternativa de mercado. A plataforma concentra a administração das variáveis que definem o que será reconhecido, premiado, rebaixado e excluído, e essa concentração torna explorável p. 362 a dependência do consumidor em relação a parâmetros que ele não controla e que, em regra, não consegue verificar. Assim, a tutela não pode se limitar a inventariar cláusulas ou a presumir que a escolha do usuário encerra o sentido do fornecimento, porque a conformação efetiva do objeto se produz por operações continuadas do ecossistema que determinam condições de acesso, permanência, reputação e sanção. O ponto alcançado é que a vulnerabilidade, nesse cenário, possui densidade institucional e exige deveres proporcionais ao poder exercido, especialmente no que se refere à inteligibilidade de critérios, à estabilidade mínima das condições de fruição e à possibilidade de recomposição quando mudanças, modulações ou sanções degradam a posição de fruição que dá sentido econômico ao OIC.

O custo dessa permanência por recalibragem contínua aparece com mais nitidez quando a temporalidade do ambiente é descrita como temporalidade de jogo, isto é, organizada por recompensas imediatas, ciclos curtos de validação e experiências rápidas de sucesso. Han observa que jogos exibem uma temporalidade marcada por sucesso e recompensa imediatos, mas que aquilo que amadurece no tempo não pode ser gamificado, porque o que é longo e duradouro tende a se mostrar incompatível com a temporalidade do jogo, de modo que a caça se ajusta ao regime de recompensas, enquanto a agricultura, dependente de processos lentos e crescimento silencioso, não se deixa converter em pontuação e níveis, pois a vida não pode ser reduzida a caça permanente390 (Han, 2017, [p. 43]). Assim, torna-se possível sustentar que o um ecossistema estruturado por comparação, desempenho e feedback rápido tende a corroer as condições de continuidade subjetiva e de estabilidade experiencial, exigindo do consumidor um ajuste incessante apenas para continuar legível e premiável dentro do circuito que sustenta o valor de seu OIC.

Nesse registro, a otimização deixa de funcionar como promessa de aperfeiçoamento e passa a operar como requisito sistêmico de permanência, pois o ambiente valoriza aquilo que pode ser intensificado, mensurado e comparado, empurrando o sujeito para uma compulsão de p. 363 produtividade que não admite interrupção. As formulações de Han, ainda que propositalmente carregadas, ajudam a fixar o ponto de maneira tecnicamente útil, pois descrevem uma dinâmica em que a positividade do desempenho converte a vida interior em combustível da exigência de produzir mais, e na qual a própria ideia de ajuste se desloca de cuidado para exaustão.

Em ecossistemas que administram reconhecimento e permanência como condições de valor, a exigência de permanecer no jogo por recalibragem contínua deixa de ser desconforto individual e passa a ser mecanismo regular de governança, porque a fruição se mantém apenas enquanto o sujeito consegue sustentar, de modo reiterado, sinais de aderência aos critérios do ambiente.

A sujeição descrita não é um elemento lateral do regime do OIC, porque indica com objetividade a tração prática que permite que regras privadas e sanções técnicas operem com eficiência no cotidiano dos ecossistemas. Quando a permanência depende de reconhecimento, quando a continuidade de fruição depende de aderência a métricas e quando o custo do desajuste se manifesta como perda de posição e de legibilidade social, o sujeito já se encontra investido no ambiente antes mesmo do ato explícito de enforcement.

Nesse cenário, a norma interna não se limita a declarar permissões e proibições, pois ela incide sobre um usuário que precisa permanecer premiável e rastreável, de modo que a disciplina se realiza por expectativa de visibilidade, por risco de rebaixamento e por temor de exclusão funcional, sem depender de coerção frontal para estabilizar conformidade. A consequência é que a governança por arquitetura e por informação, ao produzir cativeiro identitário, prepara o terreno no qual a regra privada se torna efetivamente normativa, porque encontra um sujeito disposto a se ajustar continuamente para preservar aquilo que dá sentido econômico e existencial ao próprio OIC.

Impõe-se, portanto, que a análise deve avançar da sujeição para a normatividade do ambiente. Regras internas e enforcement técnico não operam apenas como texto contratual, mas como decisões implementadas em filtros, parâmetros, bloqueios, graduações e procedimentos que reconfiguram a fruição em tempo real. Uma vez demonstrado que adesão e autoajuste são efeitos estruturais do ecossistema, torna-se necessário examinar como políticas internas se convertem em restrições e autorizações efetivas, com unilateralidade e opacidade suficientes para produzir exclusão e desapossamento funcional. O passo seguinte, portanto, consiste em descrever a Lex Plataformae e seu enforcement como normatividade prática do ambiente, pois é nesse nível que o poder privado se torna juridicamente controlável em termos proporcionais.

Notas

  1. Na obra Psychopolitics: Neoliberalism and New Technologies of Power, originalmente intitulada Psychopolitik., o filósofo sul-coreano radicado na Alemanha, Byung-Chul Han (2017), propõe uma leitura das formas contemporâneas de poder a partir do deslocamento da coerção externa para mecanismos de exploração internalizada. O livro sustenta que, sob racionalidade neoliberal e sob mediação tecnológica, liberdade, iniciativa e desempenho deixam de operar como promessas emancipatórias e passam a funcionar como instrumentos de autovinculação, nos quais o sujeito se governa por otimização, transparência e produtividade. A utilidade é descritiva. As categorias propostas por Han permitem nomear como tecnologias de informação, métricas e regimes de visibilidade convertem adesão, autoajuste e comparação contínua em conformidade estável, sobretudo em ambientes nos quais reconhecimento e permanência se tornam condições de valor. Em Sociedade do Cansaço (2015), originalmente intitulada Müdigkeitsgesellschaft, Han apresenta diagnóstico convergente a partir de outra entrada: a passagem de um modelo de disciplinamento centrado em negatividade, proibição e inimigo externo para um regime de positividade em que o imperativo de desempenho se impõe como autoexigência. O texto descreve a substituição do sujeito da obediência pelo sujeito do desempenho, cuja exploração não depende de coerção frontal porque se realiza como autoexploração e incapacidade de interromper a lógica da otimização contínua. A obra oferece linguagem útil para descrever como ambientes estruturados por comparação, metas, recompensas e visibilidade contínua podem produzir sujeição por excesso e por autoajuste, sem psicologização individualizante, permitindo tratar a conformidade como efeito estrutural de um ecossistema que administra risco simbólico e distribui reconhecimento como recurso escasso. ↩
  2. No artigo What’s Next for Ranked, a Riot apresenta mudanças estruturais na escada como gestão de distribuição e progressão, tratando o sistema como objeto de ajustes regulares, com revisão de promos e introdução de uma nova tier (“the introduction of a new Ranked tier”) (Riot Games, 2023d). O texto é valioso para a vinheta porque mostra, em linguagem institucional, que a escada é administrada como infraestrutura de percurso e pertencimento, e não como simples placar neutro. Quando a plataforma altera como se sobe, como se distribui e como se qualifica a posição do sujeito, ela redefine o que conta como desempenho suficiente e reposiciona o valor relativo do consumidor dentro do ecossistema, reforçando a lógica de autoajuste contínuo que caracteriza a psicopolítica do desempenho. ↩
  3. O contrato registra que, se a conta for encerrada, o usuário “não terá mais acesso à sua conta, inclusive aos dados associados ou ao Conteúdo Virtual” (Riot Games, 2024e).Também prevê que o acesso aos serviços opera como “licença limitada, não exclusiva, intransferível e revogável”, “expressamente condicionad[a]” aos termos do contrato, e que o encerramento cancela automaticamente essa licença (Riot Games, 2024e).Infere-se, portanto, que a posição ranqueada e sua legibilidade pública não constituem “bem” autonomizado, mas efeito institucional mantido sob condições de acesso administrado, o que reforça a leitura do custo de saída como perda de inteligibilidade e comensurabilidade no interior do ambiente. ↩
  4. No guia oficial de Honra, a Riot afirma que o sistema “é um reflexo geral do comportamento de qualquer jogador dentro e fora de jogo” e que “recompensa a conduta esportiva” enquanto “penaliza comportamentos inadequados” (Riot Games, 2025a).A mesma página descreve o acoplamento entre conduta e efeitos práticos ao indicar que a Honra oferece “benefícios adicionais” e, no sentido inverso, envolve “privilégios de comunicação limitados” e redução de recompensas (Riot Games, 2025a).O valor está em explicitar em linguagem institucional aquilo que o texto teórico já descreve: uma disciplina que opera como incentivo à participação adequada e como custo funcional do desajuste, produzindo autogestão de conduta para preservar elegibilidade e permanência. ↩
  5. Nesse sentido, a Honra é comunitariamente descrita como um sistema com níveis e checkpoints no qual os níveis 1 e 0 são “restricted Honor levels obtainable only through penalties” e “carry far fewer rewards than the normal levels” (League of Legends Wiki, [202-?]a). O mesmo verbete indica que indivíduos punidos “will get demoted in Honor level” e que, em casos de restrição de chat, ocorre rebaixamento para “level 1, or 0 if already at level 1”, estabelecendo uma lógica de queda associada à sanção e uma progressão fragmentada por checkpoints. A descrição compila com sucesso a gramática de níveis, checkpoints e recompensas, permitindo caracterizar com precisão a governança por elegibilidade. ↩
  6. Nos Termos, a Riot explicita que o usuário concorda em seguir as “Regras de Usuário”, que “regem o comportamento durante o jogo” e também “certas condutas fora do jogo”, e acrescenta que a Cláusula 7 “explica as penalidades”, incluindo “suspensões temporárias”, “suspensão ou encerramento da conta e sua exclusão” e “banimento do hardware” (Riot Games, 2024e).O que interessa aqui é a forma como a disciplina é integrada ao vínculo contratual como possibilidade ordinária de modulação do acesso, com intensidade suficiente para converter elegibilidade em preocupação permanente do usuário. ↩
  7. O contrato afirma que as Regras de Usuário “se aplicam não apenas dentro de nossos Serviços, mas também enquanto você transmite em uma plataforma de transmissão”, e acrescenta que “também se aplicam aos seus vídeos gravados e postagens nas mídias sociais” (Riot Games, 2024e).Além disso, registra que “a má conduta em um de nossos jogos pode resultar em penalidades aplicáveis em outro jogo” e admite “banimentos temporários ou permanentes e suspensões de conta aplicáveis a todos os nossos jogos” (Riot Games, 2024e). Portanto, a normatividade do ambiente não se reduz a proibição interna do “match”, pois opera como governança ampliada, afetando o ecossistema da empresa como um um todo, incluindo seus demais jogos, em aspecto de conduta e identidade, com efeitos práticos sobre acesso e permanência que alimentam e potencializa a internalização do controle. ↩
  8. “As the entrepreneur of its own self, the neoliberal subject has no capacity for relationships with others that might be free of purpose. Nor do entrepreneurs know what purpose-free friendship would even look like. Originally, being free meant being among friends. ‘Freedom’ and ‘friendship’ have the same root in Indo-European languages. Fundamentally, freedom signifies a relationship. A real feeling of freedom occurs only in a fruitful relationship - when being with others brings happiness. But today’s neoliberal regime leads to utter isolation; as such, it does not really free us at all. Accordingly, the question now is whether we need to redefine freedom - to reinvent it - in order to escape from the fatal dialectic that is changing freedom into coercion. Neoliberalism represents a highly efficient, indeed an intelligent, system for exploiting freedom. Everything that belongs to practices and expressive forms of liberty - emotion, play and communication - comes to be exploited. It is inefficient to exploit people against their will. Allo-exploitation yields scant returns. Only when freedom is exploited are returns maximized. It is interesting to note that Marx also defines freedom in terms of a successful relationship to others: ‘Only in community [with others does each] individual [have] the means of cultivating his gifts in all directions; only in the community, therefore, is personal freedom possible.’1 From this perspective, being free means nothing other than self-realization with others. Freedom is synonymous with a working community (i.e., a successful one). For Marx, individual freedom represents a ruse - a trick of capital. ‘Free competition’, which is based on the idea of individual freedom, simply amounts to the ‘relation of capital to itself as another capital, i.e., the real conduct of capital as capital’. Capital reproduces by entering into relations with itself as another form of Capital: through free competition. It copulates with the Other of itself by way of individual freedom. Capital grows inasmuch as people engage in free competition. Hereby, individual freedom amounts to servitude inasmuch as Capital lays hold of it and uses it for its own propagation. That is, Capital exploits individual freedom in order to breed: ‘It is not the individuals who are set free by free competition; it is, rather, capital which is set free.’ The freedom of Capital achieves self-realization by way of individual freedom. In the process, individuals degrade into the genital organs of Capital. Individual freedom lends it an ‘automatic’ subjectivity of its own, which spurs it to reproduce actively. In this way, Capital continuously ‘brings forth living offspring’. Today, individual freedom is taking on excessive forms; ultimately, this amounts to nothing other than the excess of Capital itself.“ (Han, 2017, [p. 9-10], grifos do original) ↩
  9. “In order to heighten productivity, emotional capitalism also enlists playing and games - which should, in fact, be the Other of Work, its opposite. Emotional capitalism is gamifying the life- and working world. Playing games lends an emotional, indeed a dramatic, charge to working - which in turn generates more motivation. Because games rapidly deliver a sense of success and reward, the result is higher performance and a greater yield. A person playing a game, being emotionally invested, is much more engaged than a worker who acts rationally or is simply functioning. Games exhibit a specific temporality marked by immediate experiences of success and reward. But what matures over time cannot be gamified. Whatever is long, anything that lasts a long time, proves incompatible with the game’s temporality. Hunting, for instance, matches the mode of the game, whereas farming, which depends on slow processes of ripening and quiet growth, cannot be gamified at all. Life cannot be turned into hunting alone. The gamification of work exploits homo ludens. The player subjugates him- or herself to the order of domination in the very act of playing. Today, the gamification logic of ‘Likes’, ‘Friends’ and ‘Followers’ means that social communication is also being plugged into and subordinated to a game mode. The corollary of the gamification of communication is its commercialization. That said, this process is destroying human communication.” (Han, 2017, [p. 43], grifo do original). ↩