Técnica e mídia
Willem H. Vanderburg
A abertura de capítulo que declara a função deste autor está em Fundamentos.
Na lista de referências
- VANDERBURG, Willem H. Our war on ourselves: rethinking science, technology, and economic growth. Toronto; Buffalo; London: University of Toronto Press, 2011.
- VANDERBURG, Willem H. Our battle for the human spirit: scientific knowing, technical doing, and daily living. Toronto; Buffalo; London: University of Toronto Press, 2016.
Onde a tese o cita
28 trechos, na ordem da tese.
A obra de Willem H. Vanderburg (2011) aprofunda essa crítica ao examinar a publicidade como catalisadora interessada da dessimbolização cultural, processo pelo qual necessidades artificiais são produzidas e o consumo excessivo é normalizado.
Segundo Willem H. Vanderburg (2016), a dessimbolização cultural representa o processo de enfraquecimento da capacidade humana de se atribuir significado às experiências, resultando em uma compreensão fragmentada e empobrecida da vida como um todo.
O esquema de delegação disciplinar distribui fenômenos físicos, biológicos, sociais e econômicos a especialistas distintos; funciona quando uma categoria de fenômenos predomina, mas se torna inadequado quando várias categorias contribuem simultaneamente para o problema analisado (Vanderburg, 2011, p. 3).
Essa estrutura ajuda a explicar por que a civilização moderna pode obter êxito em empreendimentos científicos e técnicos e, ainda assim, falhar diante de comunidades e ecossistemas, cuja compreensão exige integração de dimensões heterogêneas (Vanderburg, 2011, p. 3).
Vanderburg (2011, p. 21) sustenta que tecnologias computacionais de informação e comunicação fortalecem a ordem técnica em detrimento das ordens cultural e natural, com efeitos diretos sobre o modo como a experiência é organizada e interpretada.
Além disso, atividades mediadas por computador tendem a exigir reconfiguração por uma divisão técnica do trabalho, pois a prática acaba reorganizada para se adequar às exigências do próprio aparato informacional (Vanderburg, 2011, p. 21).
Essa transformação interessa diretamente ao consumo digital porque reduz a margem de leitura crítica dos ambientes mediados por signos, justamente aqueles em que ofertas, interfaces e promessas são apresentadas como se fossem naturais ao mundo (Vanderburg, 2016, p. 68).
No que toca à dessimbolização cultural, Vanderburg descreve um processo instalado quando condições de vida restringem corporeidade, participação, compromisso e liberdade, enfraquecendo o pano de fundo prático que sustenta a simbolização (Vanderburg, 2011, p. 77).
Não se trata de ausência abstrata de símbolos, mas da deterioração das condições concretas que permitem atribuir sentido ao vivido, inclusive pela dimensão corporal da experiência (Vanderburg, 2011, p. 77).
Quando esse tecido se rompe, pode ocorrer perda de integridade do eu em sua trama de relações, acompanhada de sobrecarga, impotência e desamparo (Vanderburg, 2011, p. 76).
Por isso, as tradições podiam funcionar como uma espécie de “mapa mental”, com densas conexões simbólicas nos âmbitos socialmente vividos (Vanderburg, 2016, p. 11).
Vanderburg define a dessimbolização como a corrosão da capacidade cultural de organizar a experiência humana de modo dialético, isto é, de manter relações de sentido que conectem elementos do mundo e lhes deem compatibilidade (Vanderburg, 2011, p. 17).
Quanto menores os níveis de dessimbolização, maior a tendência de uma cultura produzir criações compatíveis entre si, ao passo que níveis elevados favorecem um mundo em que as coisas perdem encaixe e coerência (Vanderburg, 2011, p. 17).
O processo se intensifica quando a abordagem técnica disciplinar substitui a abordagem cultural simbólica, o que separa a ordem técnica da ordem cultural construída pela experiência e faz com que a expertise se distancie da vida humana por camadas de abstração (Vanderburg, 2011, p. 13-14).
Como efeito subjetivo e social, essa separação reconfigura papéis e fratura a unidade da vida vivida, produzindo sujeitos divididos e culturas alienadas sob horizontes interpretativos cada vez mais difusos (Vanderburg, 2011, p. 88; p. 107).
No plano da racionalidade prática, o autor descreve a passagem para um comportamento orientado a metas, em que o contexto considerado se restringe, pois tudo o que não é diretamente relevante ao objetivo tende a ser excluído, separando o relevante do marginal e eliminando o que passa a ser tido como irrelevante (Vanderburg, 2011, p. 179-180).
Com a perda da tradição como pano de fundo, as organizações cérebro-mente deixam de funcionar como mapas mentais suficientes para orientar a vida, e a cultura passa a operar como radar, rastreando o que acontece no mundo e como as pessoas respondem para ajustar condutas, encaixar-se e pertencer (Vanderburg, 2011, p. 204).
Nessa chave, a técnica não apenas organiza o fazer; ela reorganiza os critérios de relevância pelos quais o sujeito reconhece valor, pertencimento e perda. (Vanderburg, 2016, p. 141).
Nesse regime, a simulação não precisa ser verdadeira para operar como realidade suficiente, pois passa a organizar condutas, afetos e escolhas na medida em que fornece um mundo funcional no qual o sujeito aprende a agir e a se orientar (Vanderburg, 2011, p. 102).
A dissociação então se mostra juridicamente interessante, uma vez que a ação e a avaliação da experiência tendem a ser reduzidas a resultados mensuráveis e comparáveis, deslocando a atenção do significado e do contexto para o desempenho e para o indicador (Vanderburg, 2011, p. 109).
A consequência é uma percepção comprimida e instrumental, afinada para o imediato e para o fragmento, com ciclos curtos de atenção e processamento por unidades mínimas de informação, o que empobrece a integração simbólica da experiência (Vanderburg, 2016, p. 360).
Vanderburg descreve esse papel suplementar da mídia em sociedades de alta dessimbolização como uma condição de imersão contínua em um “bath of images”, no qual a orientação prática da vida passa a ser, em parte, terceirizada para fluxos tecnicamente produzidos de sentido (Vanderburg, 2011, p. 92).
Quando a socialidade é filtrada por plataformas, a relação com o outro tende a ser atravessada por dinâmicas de visibilidade, comparação e autoapresentação, aproximando convivência de performance e convertendo a si mesmo em algo a ser administrado e reconhecido externamente (Vanderburg, 2016, p. 231; p. 367).
A publicidade dirigida a crianças aparece, no argumento, como caso-limite exemplar desse mecanismo, precisamente por operar cedo sobre os critérios de valoração e de sentido, deslocando a formação do juízo para um circuito de estímulo e resposta (Vanderburg, 2011, p. 100-101).
Nesse registro, anúncios se empobrecem em conteúdo informativo e se sofisticam em engenharia associativa, consolidando na mente do consumidor uma equivalência entre mercadoria e símbolo desejável (Vanderburg, 2011, p. 204).
Se, de um lado, a linguagem vai se tornando instrumento de uso imediato, em vez de portadora de sentido integrado (Vanderburg, 2016, p. 68), de outro, a comunicação de massa passa a operar pela produção de efeitos afetivos por associação e por deslocamento de contextos, o que rebaixa o papel do significado no interior da própria língua.
Vanderburg sintetiza esse mecanismo ao afirmar que já não é o significado que palavras e frases possuem no interior da linguagem que estrutura a comunicação midiática, mas os sentimentos e emoções que podem produzir ao serem associadas a contextos muito distintos daqueles que compõem a experiência linguística dos membros das comunidades (Vanderburg, 2011, p. 51).
Para Vanderburg (2011, p. 215): “There is no question, therefore, that human life and society continue to depend on a culture, even when it is highly desymbolized.