Antropologia do consumo
Émile Durkheim
Na lista de referências
- DURKHEIM, Émile. As formas elementares da vida religiosa: o sistema totêmico na Austrália. Tradução de Paulo Neves. São Paulo: Martins Fontes, 1996.
- DURKHEIM, Émile. O suicídio: estudo de sociologia. Tradução de Monica Stahel. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
- DURKHEIM, Émile. Da divisão do trabalho social. 2. ed. Tradução de Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
Onde a tese o cita
7 trechos, na ordem da tese.
Para o autor, a religião — e, com ela, uma das matrizes fundamentais da coesão moral — não se explica pela simples referência a “deuses”, mas pela cisão constitutiva do universo social entre sagrado e profano, em que o sagrado se define pelo regime de interdições que o protege e isola, funcionando como polo de ordenação coletiva (Durkheim, 1996, p. 24).
Nessa arquitetura, o totem opera como suporte sensível e emblema de uma força coletiva que, por ser difusa, precisa objetivar-se em figura material para tornar-se percebida e socialmente obrigatória; por isso, quando o grupo investe o símbolo, não se trata de um “erro” perceptivo, mas de uma forma de tornar visível e eficaz uma energia social real transfigurada, a ponto de Durkheim afirmar que a própria ideia de sociedade constitui o núcleo vital da religião (Durkheim, 1996, p. 462- 463).
A unidade social, porém, não se mantém por inércia: ela exige ritos e assembleias capazes de revigorar periodicamente sentimentos e ideias coletivas que, no cotidiano, tendem a se enfraquecer, o que evidencia a centralidade da manutenção ritual como mecanismo de continuidade social (Durkheim, 1996, p. 472).
Como nada no indivíduo fixa por si só o limite das aspirações, a contenção depende de uma força exterior (Durkheim, 2000, p. 313-315) e, quando há “perturbações da ordem coletiva”, mesmo em ciclos de prosperidade, rompe-se o equilíbrio que disciplina expectativas e condutas (Durkheim, 2000, p. 311), produzindo sofrimento social típico do desregramento (Durkheim, 2000, p. 329).
Na mesma linha, quando as relações entre funções sociais deixam de ser adequadamente regulamentadas, a própria divisão do trabalho pode entrar em estado de anomia, falhando em produzir solidariedade (Durkheim, 1999, p. 385), embora a moralidade, enquanto fonte de vínculos que forçam o indivíduo a contar com outrem, permaneça sendo critério decisivo da integração (Durkheim, 1999, p. 420).
Essa articulação também impede duas leituras inadequadas, sobretudo a de que símbolos seriam um “erro” descartável, já que Durkheim rejeita a redução da religião a falsidade cognitiva e trata tais formas como respostas institucionais a necessidades humanas reais (Durkheim, 1996, p.
VII), e também a de que a racionalização técnica substituiria, sem resto, a função prática do vínculo simbólico, pois a explicação científica pode não ocupar o lugar da fé enquanto impulso de ação (Durkheim, 1996, p. 477).