Semiótica e linguagem
Jean Baudrillard
A abertura de capítulo que declara a função deste autor está em Fundamentos.
Na lista de referências
- BAUDRILLARD, Jean. Simulacros e simulação. Tradução de Maria João da Costa Pereira. Lisboa: Antropos, 1991.
- BAUDRILLARD, Jean. A sociedade de consumo. Tradução de Artur Morão. Rio de Janeiro: Elfos Ed.; Lisboa: Edições 70, 1995.
Onde a tese o cita
28 trechos, na ordem da tese.
A simulação desloca o debate e descreve um regime em que a equivalência sígnica sustenta valor e reconhecimento sem exigir referência estável na fruição (Baudrillard, 1991, [p. 9-10]).
A diferença é estrutural, porque o fingimento preserva o princípio da realidade, enquanto a simulação põe em crise as fronteiras entre verdadeiro e falso, real e imaginário (Baudrillard, 1991, [p. 9-10]).
Nesse quadro, o mapa deixa de representar o território para precedê-lo, e os signos do real podem substituir a própria experiência por um duplo operatório suficiente para curto-circuitar a verificação (Baudrillard, 1991, [p. 8-9]).
Sua perspectiva se torna especialmente útil quando observa que, na sociedade de consumo, a promessa socialmente valorizada tende a exigir mensuração e prova por objetos e signos, o que exclui do ideal do consumo uma felicidade que prescinda desses marcadores (Baudrillard, 1995, p. 47).
O ponto de partida é a recusa do consumo como apropriação do valor de uso, pois “nunca se consome o objecto em si” e os objetos “manipulam-se sempre como signos que distinguem o indivíduo”, seja por filiação ao grupo de referência, seja por demarcação perante um estatuto superior (Baudrillard, 1995, p. 60).
Esse quadro se completa quando o consumo é definido como “sistema de troca de signos” que integra o grupo, funcionando ao mesmo tempo como moral e como “sistema de comunicação”, de modo que o prazer deixa de ser a finalidade racional e aparece como racionalização individual de um processo cujos fins se encontram noutra parte (Baudrillard, 1995, p. 78).
Baudrillard explicita esse deslocamento ao sustentar que, como conceito específico da sociedade contemporânea, o consumo não se estrutura por necessidades e utilidade natural, mas pela reorganização desse nível primário em um sistema de signos (Baudrillard, 1995, p. 79).
A consequência aparece quando o autor descreve a opulência como acumulação de signos da felicidade e aponta que as satisfações conferidas pelos objetos podem operar como antecipação de uma satisfação virtual, vivida como milagre na prática cotidiana (Baudrillard, 1995, p. 22-23).
Ao mesmo tempo, essa equivalência não se sustenta por correspondência com uma referência estável, porque a simulação se instala mediante a “liquidação de todos os referenciais” e sua “ressurreição artificial nos sistemas de signos”, material que se oferece “a todos os sistemas de equivalência” e a uma “álgebra combinatória” (Baudrillard, 1991, [p. 9]).
A lei que atravessa o universo do consumo é descrita como “lei de renovação do material distintivo ‘a partir de cima para baixo’”, que condiciona a inovação dos objetos enquanto material social de distinção, e não como resposta ascendente a necessidades (Baudrillard, 1995, p. 62).
No mesmo registro, a obsolescência deixa de ser contingência técnica e passa a integrar o desenho do ciclo: não se produz em função da duração, mas “em função da sua morte”, por uma “obsolescência calculada” que condena o objeto ao efêmero (Baudrillard, 1995, p. 42).
Essa lógica se conecta diretamente ao modo como as diferenças são produzidas, já que a significação não opera como expressão pessoal, mas como variação “diferencial, marginal e combinatória”, dependente da “produção industrial das diferenças” (Baudrillard, 1995, p. 88), e é vivida pelo consumidor como liberdade e aspiração quando, na verdade, corresponde a “condicionamento de diferenciação” e “obediência a um código”, no qual diferenciar-se equivale a instaurar uma “ordem total das diferenças” que ultrapassa o indivíduo (Baudrillard, 1995, p. 60).
Baudrillard descreve esse deslocamento ao sustentar que o sistema se torna um gigantesco simulacro, não mais passível de ser trocado pelo real, mas trocando-se em si mesmo em um circuito ininterrupto cuja referência e circunferência não se situam em lugar algum (Baudrillard, 1991, p. 10).
Isso explica por que recomposições nominais podem ser economicamente eficazes, já que o consumo opera por distinção e por critérios visíveis de equivalência, e a fruição interior não basta como medida social do valor (Baudrillard, 1995, p. 47; p. 60).
O consumo opera como um sistema de ordenação de signos que integra o grupo e organiza a permuta social, impondo-se por coações em larga medida inconscientes, de modo que a organização estrutural ultrapassa os indivíduos (Baudrillard, 1995, p. 78).
É nesse sentido que Baudrillard afirma que o consumidor vive suas condutas distintivas como liberdade, aspiração e escolha, e não como condicionamento de diferenciação e de obediência a um código (Baudrillard, 1995, p. 60).
“Diferenciar-se”, nesse regime, não significa afirmar uma singularidade real; significa entrar no jogo combinatório das diferenças, instaurando a ordem total das diferenças que constitui o fato da sociedade total e ultrapassa o indivíduo (Baudrillard, 1995, p. 60).
A promessa de personalização aparece como máximo de individualidade, mas o mecanismo descrito é o oposto: diferenciar-se tende a equivaler a adotar modelos e a renunciar à diferença real, porque as diferenças “personalizantes” se hierarquizam e convergem para modelos a partir dos quais se produzem e se reproduzem (Baudrillard, 1995, p. 88-89).
Em termos estruturais, a lógica fundamental é a da diferenciação e personalização sob o signo do código, que produz indivíduos como “personalizados” em conformidade com modelos gerais (Baudrillard, 1995, p. 93).
Em Baudrillard, essa lógica aparece como tautologia do modelo, na qual a validação não depende de confronto com um referente, pois a realidade não passa do modelo que a si mesmo se exprime, e a circulação dos signos conduz apenas a uma evidência rodopiante, o que permite indagar se não se trata de pura tautologia e de prova pela existência (Baudrillard, 1991, p. 135).
No exemplo mobilizado pelo autor, a simulação não se limita a encenar um estado inexistente, na medida em que produz sintomas, pois o simulador determina em si próprio alguns dos respectivos sintomas (Baudrillard, 1991, [p. 10-11]).
A simulação, ao contrário, põe em causa a diferença entre verdadeiro e falso, real e imaginário, produzindo cenário em que, se o simulador produz sintomas verdadeiros, não se pode tratá-lo objetivamente nem como doente nem como não doente (Baudrillard, 1991, [p. 10]).
Pois se qualquer sintoma pode ser ‘produzido’ e já não pode ser aceite corno um facto da natureza, então toda a doença pode ser considerada simulável e simulada e a medicina perde o seu sentido, uma vez que só sabe tratar doenças ‘verdadeiras’ pelas suas causas objectivas.“ (Baudrillard, 1991, [p. 9-10]).
Hiper-real, doravante ao abrigo do imaginário, não deixando lugar senão à recorrência orbital dos modelos e à geração simulada das diferenças.“ (Baudrillard, 1991, [p. 9]).
O deserto do próprio real.“ (Baudrillard, 1991, [p. 8]).
Neste sentido, o consumo constitui uma ordem de significações, como a linguagem, ou como o sistema de parentesco nas sociedades primitivas.“. (Baudrillard, 1995, p. 78-79).
Ou então, distinguindo a lógica da diferença das simples determinações […] conscientes de prestígios, que são ainda satisfações, consumo de diferenças positivas, ao passo que o sinal distintivo se revela a um tempo diferença positiva e negativa - facto que o leva a referir-se indefinidamente a outros signos e a induzir no consumidor a insatisfação definitiva.” (Baudrillard, 1995, p. 60- 61).
O consumidor, por meio da compra, consagrará apenas o acontecimento do mito.“ (Baudrillard, 1991, p. 135-136).