Percurso · Parte 11 de 11
Por que dar nome a tudo isso?
Tudo começou com uma pergunta simples. A skin é sua? No caminho apareceu um tipo de consumo em que você imagina estar em terreno próprio, mas só anda num chão emprestado, que pode ser retirado e refeito.
A travessia realizada neste trabalho começou pela constatação de que existe um tipo de consumo em que o sujeito imagina estar em terreno próprio, mas só se move dentro de um chão concedido, revogável e reconfigurável.p. 791
A saída não é derrubar tudo. Seria como querer apagar o sol para acabar com a sombra. O objetivo é outro. Domar a desigualdade sem destruir a estrutura. Conter, não demolir.
Encaminhar, porém, não significa buscar um gesto heroico de demolição, como se fosse desejável apagar o sol para resolver o problema da sombra. Encaminhar significa propor critérios capazes de domesticar a assimetria sem destruir a infraestrutura.p. 791
É nesse sentido que a tutela proposta se organiza como ética de contenção, não como ética de demolição.p. 793
Uma imagem
Um mito egípcio ajuda a ver isso. Rá, o deus Sol, reinava sobre todos, mas não era invulnerável. Ísis não queria destruir o Sol. Queria que ele reconhecesse que não era absoluto. Com uma serpente feita da substância do próprio Rá, ela o envenenou e, em troca da cura, pediu uma só coisa. O nome que ele guardava para si. Uma vez nomeado, o poder deixa de ser pura presença. Passa a poder ser chamado, delimitado e obrigado a responder pelo que faz.
Rá reina sobre todos, mas não é invulnerável.p. 792
Ao mesmo tempo, Ísis não deseja aniquilar o sol.p. 792
Seu interesse é forçar o sol a reconhecer que não é absoluto.p. 792
Ísis produz a serpente a partir da substância do próprio Rá e, com isso, transforma o excesso de poder em instrumento de manifestação de seu limite.p. 792
Em troca da cura, Ísis exige apenas que Rá revele a ela o nome que guarda para si.p. 792
Uma vez nomeado, o poder deixa de operar como pura presença natural e passa a ser invocável, delimitável e, portanto, obrigado a responder por seus atos.p. 792
É isso que os nomes deste percurso fazem. Enquanto a plataforma puder dizer que apenas funciona, apenas atualiza, apenas aplica regras, a discussão fica presa ao idioma do inevitável. Quando se mostra que acesso, permanência, visibilidade, reputação e uso são organizados por desenho e por punição, o que parecia clima volta a parecer decisão. E decisão pode ser controlada.
O que falta ao direito do consumidor não é indignação. É vocabulário para mostrar decisões que hoje passam por simples funcionamento do sistema. Nomear não é fazer poesia. É tirar o poder do lugar do óbvio e levar para o lugar do que se pode contestar.
O que falta ao Direito do Consumidor diante da Lex Plataformae não é indignação moral, nem tampouco repertório retórico de denúncia. Falta-lhe vocabulário para tornar demonstráveis decisões que hoje se passam por mero funcionamento do sistema.p. 792
Nomear não é poetizar. Nomear é deslocar o poder de um regime de autoevidência para um regime de contestabilidade.p. 792
Volte à sua skin. O que você perguntaria agora?